Vida dura

José Paulo Kupfer

16 de julho de 2013 | 10h02

Pela nona semana consecutiva, o Boletim “Focus”, publicação do Banco Central com as projeções de economistas de mercado para indicadores econômicos, apontou redução na variação do PIB para 2013. Depois de um tempo estacionadas em 3%, as previsões para o PIB descem a ladeira, devagar e sempre, há dois meses. Chegaram agora em 2,31% e, pelo andar da carruagem, ainda não bateram no fundo do poço.

Uma expansão da economia em 2% caminha para se tornar o teto otimista das estimativas. Seria necessária uma catástrofe sem precedentes para que o resultado, no fim do ano, ficasse, novamente, abaixo de 1%. Mas a hipótese de uma recessão no último trimestre começa a ganhar adeptos e um crescimento entre 1,3% e 1,8%, em 2013, entrou no radar dos analistas.

Essa, porém, pode não ser a pior notícia. Pior é a possibilidade de que um crescimento anual abaixo de 3% esteja se tornando o padrão para os próximos anos. Há, infelizmente, uma conjunção de elementos para se acreditar que um período razoavelmente longo de crescimento baixo possa estar ganhando corpo. Talvez seja pessimista demais falar em nova década perdida, mas a vida promete ser dura nos próximos anos.

Duas das principais condições presentes no último espasmo de crescimento mais vigoroso da economia brasileira, ocorrido entre 2004 e 2010 – elevação das cotações internacionais das commodities básicas e fluxo abundante de capitais externos –, entraram em reversão e a ausência de ações de longo prazo, visando superar as gritantes fragilidades estruturais da economia brasileira, que deveriam ter sido adotadas nos tempos do vento a favor, já estão cobrando seu preço.

Não subsistem grandes divergências sobre o diagnóstico do ocorrido. O período que precedeu o crash de 2008 foi caracterizado por forte expansão econômica em todas as regiões do globo, notadamente na Ásia, com especial destaque para a China, que puxaram os preços das commodities. A explosão dos negócios financeiros promoveu, ao mesmo tempo, larga liquidez internacional, estimulando a dispersão de capitais por diversos mercados emergentes.

A aposta exclusiva nas vantagens comparativas derivadas da natural vocação agrícola brasileira, então parecendo tão exclusiva, reuniu, no mesmo lado do balcão, governo e parte dos seus críticos na área econômica – alguns, ironicamente, hoje convertidos em neoindustrialistas. O resultado é que a taxa de investimento teimou em avançar pouco e, em seguida, estacionou, amplificando os gargalos da infraestrutura, enquanto a indústria, duramente afetada em sua competitividade por mais de uma década e meia de câmbio valorizado, foi relegada, quase inteiramente, à própria sorte.

Vítima recorrente da maldição do curto prazo, o País encontrará grandes dificuldades para tirar vantagem da desvalorização cambial decorrente do refluxo dos capitais externos e das receitas de exportação de commodities. O encolhimento com a receita de exportações de commodities poderia ser compensado pelo fôlego que a desvalorização daria às vendas externas industriais. Mas a indústria, coitada, agora agoniza.

Para ganhar terreno num comércio internacional mais protecionista nas importações e mais agressivo nas exportações, as exportações industriais necessitariam de uma taxa de câmbio fora de cogitação, por seus efeitos inflacionários. O fato é que, pelo menos nas duas últimas décadas, a economia brasileira foi arrastada, para cima e para baixo, pela trajetória das cotações internacionais das commodities básicas. E não conseguiu desenvolver estratégias capazes de mudar esse destino, apesar da diversificação da sua indústria e do peso elevado de seu setor de serviços.

A conclusão, inevitavelmente sombria, leva a imaginar que, enquanto não acontecer uma nova alta consistente dos preços das commodities básicas – isto é, enquanto a economia mundial não entrar em outra etapa de expansão mais forte –  restará à política econômica, tanto no lado fiscal quanto no monetário, para escapar de surtos inflacionários, optar por movimentos contracionistas, com todos os impactos previsivelmente negativos sobre o crescimento que eles costumam produzir.

 

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