Vieram para ficar

José Paulo Kupfer

28 de setembro de 2012 | 10h17

Da avalancha de informações e projeções reunidas no Relatório Trimestral de Inflação, edição do terceiro trimestre de 2012, divulgado nesta quinta-feira pelo Banco Central, o que se pode imaginar que será o mais comentado pode não ser o mais interessante. Os ajustes – para expansão de 1,6% no crescimento econômico e para 5,2%, na evolução da inflação, considerado o ano civil de 2012 – alinham as projeções do BC às do mercado e, portanto, como se diz no jargão do mundo financeiro, já estavam “precificados”.

Não se pode, porém, deixar de observar que, precificada ou não, é uma projeção das mais incômodas para o próprio governo. Afinal, a projeção atualizada do BC para o crescimento em 2012 é praticamente a mesma que, há algum tempo, vindo do setor privado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, considerou como “piada”.

Se, contudo, o que mais importa avaliar é o que vem pela frente, o documento do BC fornece indicações mais valiosas. É possível observar, em alguns aspectos, mudança de tom, numa linha que revela um pouco mais de preocupação, em relação ao Relatório de Inflação anterior, na avaliação dos impactos, principalmente no curto prazo, de alguns departamentos da economia sobre a trajetória da inflação. Sinal reforçado de que o ciclo de corte nos juros está mesmo no fim.

A política fiscal, por exemplo, passou de neutra para “ligeiramente expansionista”. Outra indicação, na mesma direção, vem da análise dos choques de oferta de alimentos, que leva o BC a considerar que o cenário internacional apresenta no curto prazo, viés inflacionário, embora se mantenha desinflacionário, no médio prazo.

Uma curiosidade deste Relatório de Inflação é que algumas das suas melhores indicações não se encontram no corpo do texto principal, mas nos quadros complementares – os “boxes” do documento. Dois chamam mais a atenção: o que trata da taxa de juros de equilíbrio e o que avança em projeções para a dívida pública.

O BC estima uma curva descendente para as dívidas líquida e bruta do setor público até 2016. Na sua projeção, a dívida líquida retrocederia de 35,2%, em 2012, para 28,8% do PIB, em 2016 e a bruta, de 57,2% para 46,3% do PIB, no mesmo período. Números que colaboram para a formação de um ambiente favorável à expansão dos investimentos.

Essa descompressão na dívida pública é, na visão do BC, um dos diversos componentes analisados no documento, que ajudam a consolidar a convicção de que a taxa de juros de equilíbrio – aquela que não pressiona a inflação – vem passando por expressiva redução. Uma tradução possível dessa convicção é a de que o BC, mesmo reconhecendo alguns riscos inflacionários e uma aceleração no ritmo de crescimento da economia, pode já estar avaliando a desnecessidade de elevar os juros básicos em 2013 – e que taxas básicas mais baixas vieram para ficar.

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