6 lições em 6 dias com Nora Bateson

6 lições em 6 dias com Nora Bateson

Claudia Miranda Gonçalves

11 de fevereiro de 2020 | 10h00

Estive na formação para me tornar host de Warm Data Labs. Warm data é uma forma de nos lembrar que estórias pessoais, as narrativas de como as pessoas navegam diversos contextos são sempre quentinhos (vivos!!!). Nos lembra de não separarmos os dados das emoções, da fisiologia da memória, do sutil.

 

A host dessa formação era Nora Bateson!  Passado o momento de tietagem e admiração, compartilho aqui as principais lições aprendidas e especialmente a atitude sistêmica que deve acompanhar o pensador sistêmico.

Nora Bateson me conduziu para além dos elegantes loops e das setas para cá e para lá.

Lição 1

A natureza e a vida são, de fato, mais bagunçadas e caóticas que laços retroalimentados! As tentativas de fixar ou de determinar intervenções diretas costumam dar errado.  Temos inclusive dizeres que nos alertam para isso: “Atirou no que viu e acertou o que não viu”.

 

Lição 2

Para lidar com a complexidade, o que mais funcional é acrescentar complexidade.  Parece loucura, mas a experiência que vivi nos Warm Data Labs durante a formação tornaram essa uma lição muito clara para mim. Nora Bateson nos propôs a seguinte reflexão: Como tirar a uva do vinho? Como tirar o sal da sopa?  As imagens do vinho e da sopa deixam claro que são resultado de muitas interações químicas e processos e já se tornam outra coisa. Para gerar alguma mudança ali é mais fácil colocar mais coisa.

Se acrescento algo ao vinho ou à sopa certamente mudarei o sabor. Se acrescentar algo à visão que um grupo tem sobre uma situação, certamente haverá mudança.

 

Lição 3

Nosso olhar de túnel nos atrapalha quando estamos lidando com sistemas vivos.  Quando muitas vezes desenhamos ações, estamos olhando por um ângulo, sem nos dar conta de tantas outras variáveis serão afetadas. Por exemplo, uma diretriz de que as escolas sejam período integral, idealizada para o bem dos alunos, pode colocar em risco as escolas particulares, que terão que aumentar as mensalidades; por sua vez alguns pais se verão em situação difícil por não conseguirem pagar as mensalidades; no plano da comunidade, esses alunos egressos de escolas provadas que terão que mudar para escolas publicas terão períodos de adaptação aos novos colegas; talvez alguns adolescentes que hoje fazem parte do programa Menos Aprendiz não possam mais trabalhar, afetando a renda familiar…e por aí vai.

Quando falamos de sistemas vivos, nunca é a ação direta que resolve.

 

Lição 4

Promover diálogos mais abertos, em que os diversos contextos possam ser incluídos, amplia o olhar e depois se torna terreno fértil para o surgimento de ações mais inclusivas e abrangentes. Sair do papel e do script, poder trazer a experiência humana – o warm data – é o ingrediente que adiciona complexidade e que faz a diferença.

 

Lição 5

Qual a diferença que faz diferença?

Somos biologicamente preparados para estarmos atentos às diferenças. Sabemos quando melhora ou piora sem precisar aprender! Os contrastes e comparações nos ajudam a sobreviver. Mas nosso olhar está condicionado em parte a sobreviver no contexto a que estamos familiarizados. A grande questão para nós é que nossos contextos estão líquidos. Rápidos. Como sobreviver? precisamos nos atentar para qual diferença faz diferença.

 

Lição 6

Duplo vínculo. Conceito fantástico que ajuda a entender a mudança, a diferença que faz diferença e nossa navegação num mundo em constante mudança. O duplo vínculo é a situação em que as alternativas presentes são igualmente prejudiciais. Exemplo: quero conservar a natureza, pois dependo dela para viver no longo prazo; mas, preciso trabalhar (carro ou uber ou etc) e comprar comida para família (embalagens plásticas) e pagar escola, contas etc. Se não conservar a natureza, estou com problemas, se não trabalhar e garantir meu curto prazo, estou com problemas. Além disso, não há ninguém específico a quem eu possa recorrer para sair da situação. Isso é um duplo vínculo. As saídas do duplo vínculo existem. Para acha-las precisamos nos questionar: “Qual a diferença que faz a diferença?”

Ainda estou processando muito do que aprendi e vivi nos 6 dias com Nora Bateson. Mas de fato me senti mais humilde e mais parte.