A história da Carlota

A história da Carlota

Claudia Miranda Gonçalves

21 de setembro de 2021 | 10h30

Por Andréa Nery

Uma história pra gente pensar.

Carlota é uma cozinheira de mão cheia, faz tortas deliciosas que são famosas na sua cidade. Conversando com uma amiga comentou que precisava descobrir uma forma de reduzir os custos, a amiga então se ofereceu para ajuda-la, afinal um olhar diferente poderia trazer novas ideias.
No dia que combinaram ela foi a casa de Carlota, e logo que entrou viu duas tortas assando no forno com a porta entreaberta, ela fechou pensando que era distração da amiga.
Carlota surpresa abriu rapidamente a porta do forno e falou que suas tortas só eram tão boas porque ela assava desta maneira.
– Mas isso é um absurdo Carlota! – sua amiga não se conformava, se havia uma oportunidade ela estava ali: Carlota precisava fechar a porta do forno!
Mas Carlota explicou que este era o segredo que fazia a torta tão gostosa e especial, jamais poderia mudar isso.
Sua amiga entendeu, sugeriu alterar a abertura do forno e não conseguiu melhorar os custos, e quando chegou em casa pensou que talvez devesse experimentar esta forma de assar suas tortas.

Quando ouvi esta história pensei em quantas práticas que parecem não ser efetivas no dia a dia e nas empresas seguem como verdadeiras fórmulas do sucesso e referências para o diferencial da entrega.

E como consultores chegam com melhorias, mas a história de sucesso reverbera por toda empresa e o ponto chave do que vai fazer a diferença não é identificado.

E nossa história continua…

Depois de algum tempo Carlota foi visitar sua amiga, chegando lá a amiga contou que havia tentado assar suas tortas da mesma forma, mas a única coisa que havia conseguido era aumentar sua conta de gás.
Admirada com o resultado Carlota comentou que não entendia, lembrava de sua avó contar que havia aprendido este segredo com a bisavó que assava as tortas no forno a lenha de sua casa.
-Ora, mas isso faz sentido para forno a lenha, e hoje usamos forno a gás… – Carlota quase deixou cair sua xícara de chá, ela nunca havia pensado sobre o que sua amiga dizia.
Juntas conversaram mais sobre esta história e descobriram que o diferencial da torta estava na Carlota e que havia sim uma oportunidade com a mudança do processo, e que Carlota teria bastante trabalho pela frente.

E aqui voltamos para as empresas, penso que muitas vezes as questões ficam na superfície, focadas só nos processos, sem ouvir com atenção, sem perceber a cultura ou mergulhar na história.

Não percebem os padrões e reproduzem o que aprenderam, falta a curiosidade para buscar aquilo que faz as coisas serem como são e romper paradigmas, não testam mudanças, e não ousam para desenvolver o verdadeiro diferencial.

Os processos são importantes, mantêm qualidade, permitem escalar, dão velocidade, mas são só uma parte do todo, se as pessoas ficam no piloto automático não estão atentas para o surgimento de novos contextos e seguem cegamente defendendo padrões que não conseguem reconhecer.

E os consultores que não desenvolvem uma visão sistêmica da situação e não assumem uma postura curiosa, uma escuta atenta, não são capazes de promover melhorias que se sustentam.

Em tempos de tantas mudanças e transformações precisamos lembrar da Carlota e nos abrir para nos surpreender e poder responder continuamente às necessidades que emergem.

Buscar cooperação com uma atitude mais atenta e disponível gera consciência e amplia a visão para as relações e os vieses com que atuamos e abre o caminho para um aprendizado mais rápido e uma conexão com o diferencial que trará longevidade e vitalidade para o negócio.

E você, já pensou o que está acontecendo com sua torta?

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