Da Dor

Da Dor

Claudia Miranda Gonçalves

11 de junho de 2019 | 09h25

Falo da dor emocional com empatia e respeito. Até porque eu também tenho sofrido muito, como você. Por isso, o texto de hoje pretende criar espaço para a dor ser o que ela precisa ser. Venha comigo.

Mãos no rosto invisível. Dor - Claudia Gonçalves

 

É comum ouvir por aí: “Fulano sofre porque quer.”, “Sicrano se faz de vítima.”, ou ainda, “Eles têm tudo para ser feliz e ficam nesse sofrimento todo.” Quem diz isso, não entendeu nada sobre a dor, esse sentimento por vezes negligenciado.

Sim, esta pode parecer uma palavra forte, mas é isso mesmo, negligenciamos a dor porque não termos coragem de olhar fundo para ela. Vamos logo lavando o machucado com sabão e água fria e providenciando um band-aid para tamponá-lo.

Com isso, conseguimos seguir adiante sem grandes incômodos e a ferida vai, escondida, criando uma casca para nos “proteger”. É ou não é isso o que fazemos?

Pois é. Então, o que eu tenho para dizer é que a dor, como qualquer outra emoção, precisa ser vivida em sua intensidade.

A dor emocional precisa ser bem recebida e, principalmente, reconhecida. É certo que ela não deve ser cultivada, precisa apenas receber a sua atenção, o seu olhar profundo; o seu carinho.

A dificuldade em deixar a dor ir está justamente no fato de negligenciá-la. Se você trata a dor como uma hóspede, vai acolhê-la e entender a que ela veio.

Assim, não engula tanto o choro; abrace. Não deixe isto ou aquilo para lá; converse. Não pense que só você sofre; partilhe. Não avalie a dor alheia; seja empático.

Esses “conselhos” todos querem alertá-lo para o fato de que é na vulnerabilidade que encontramos espaço para a conexão. Eu sei que não é nada confortável sentir-se vulnerável, mas, acredite, a coragem de ser imperfeito é um caminho muito interessante para aceitarmos a dor como cura.

É isso que faz com que você seja visto. É isso que o faz perder a vergonha. É isso que o leva adiante, o enche de coragem. Vai, “passe com a sua dor”.

Ela tem cura, é só olhar para dentro e permitir que a conexão com a cura aconteça. Foi por tudo isso que eu disse no começo deste texto que falo da dor com empatia, pois ela é uma emoção indissociável das outras emoções.

E se você me permite mais um conselho, eu repito: reconheça, mas não cultive a dor emocional. Abra as portas da sua casa para todos que precisam entrar.

Falando em casa e em portas abertas, termino com um poema de Rumi (mestre Sufi do Século XIII) que pode não ter a melhor tradução, mas que é inspiração para o presente:

A CASA DE HÓSPEDES

O ser humano é uma casa de hóspedes.

Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos

Mesmo que seja uma multidão de dores

Que violentamente varrem sua casa e tiram seus móveis.

Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.

Eles podem estar te limpando

para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,

encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,

porque cada um foi enviado

como um guardião do além.

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