Descontruindo

Descontruindo

Claudia Miranda Gonçalves

16 de março de 2021 | 11h27

Por Andréa Nery

Na década de 60 o filósofo Jacques Derrida trouxe a necessidade de uma reinterpretação das formações culturais e intelectuais humanas e introduziu o conceito da desconstrução.

A desconstrução não significa destruição completa, mas sim desmontagem. Serve para descobrir partes que estão escondidas e que impedem certos tipos de comportamento.

Uma desmontagem que faz questionar crenças que sustentam conceitos estabelecidos pela tradição, e que faz superar estereótipos e preconceitos com o potencial de mudar a lente pela qual vemos o mundo trazendo com ela a transformação necessária para construir uma nova realidade.

No trabalho que desenvolvo ofereço às pessoas a possibilidade para que se “desconstruam”, aplicando este conceito para descobrir o que as faz seguir de forma consciente os mesmos caminhos, mesmo quando eles já não as levam mais para onde querem ir e já não servem ao seu propósito.

“Ando pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Caio.
Estou perdido, sem esperança. Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para eu encontrar a saída.” (1)

Neste mergulho da desconstrução o primeiro movimento é reconhecer que as atitudes e comportamentos presentes estão nos impedindo de alcançar um objetivo, ou de mudar algo na nossa vida, ou ainda que nos deixam mergulhados em situações que não nos atendem mais.

Enquanto não conseguimos reconhecer seguimos agindo de maneira automática vivendo a falsa felicidade.

Incomodados por algo que não entendemos.

“Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada, mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar, mas não é culpa minha.
Ainda assim, leva um tempão para eu sair.” (1)


Reconhecer é um grande passo, mas não o suficiente para mudarmos nosso comportamento. Isso porque estes comportamentos podem estar muito enraizados, com origem em nossos antepassados, em nossa infância, em nossa experiência de vida.

E é aqui que começa a desmontagem, como nos transformar em observadores de nossa própria vida e separar o que é história, o que é estratégia e o que é pensamento, e deste lugar de observadores entender que se este comportamento serviu no passado, hoje ele já não nos atende mais.

Separar o que é meu, do que não pertence.

“Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele está ali. Ainda assim, caio. É um hábito. Meus olhos se abrem.
Sei onde estou. É minha culpa. Saio imediatamente.” (1)

Diante desta perspectiva conseguimos olhar para o tempo presente e entender.

Criamos uma consciência que gera ações concretas. Somos capazes de honrar o passado, a história, a estratégia e o pensamento, mas não estamos mais presos a eles.

Entendemos a luta sem nos deixar definir por ela, tomamos a vida como ela nos foi dada, e entendemos o aqui e agora.

Os grupos já não nos influenciam tanto, entendemos melhor o que é certo para nós e começamos a ver além das estruturas e alicerces que estiveram presentes em nossos medos e julgamentos.

“Ando pela mesma rua. Há um buraco fundo na calçada. Dou a volta.” (1)

A liberdade só pode ser encontrada quando realmente nos desvencilhamos de qualquer conceito preconcebido que aceitamos ao longo de muitas gerações, construções que serviram a nossos ancestrais e que nos permitiram chegar até aqui.

Mas, usufruir da liberdade na sua totalidade exige um trabalho de construção da nova realidade, onde as peças dever ser reunidas novamente.

Como as peças de um Lego são muitas as possibilidades e a ideia é testar novas formas, experimentar o que serve para este novo momento, o que promove o bem-estar e a satisfação desejadas.

“Ando por outra rua.” (1)

Este é um momento de coragem, requer intenção, entusiasmo, propósito para que sejam realizados muitos testes, que sejam eliminadas as formações que não estão funcionando, que sejam feitas pequenas ou grandes modificações.

E que se necessário sejam iniciadas novas desconstruções.

E é comum me perguntarem quando saber que “acertamos” …

E para esta resposta gosto de lembrar que nossa natureza é complexa, não somos máquinas, somos movimento e conexão estamos sempre em direção ao nosso propósito, até mesmo quando não o conhecemos.

Portanto, não se trata do caminho e sim da percepção no nosso caminhar por ele. Pois quando integramos nosso pensar, sentir e querer ficamos leves e o caminhar flui, como um pássaro que abre suas asas e se deixa levar pelas correntes de ar, sem esforço.

(1) Texto “Autobiografia em 5 capítulos” – citado no livro “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” do Lama Sogyal Riponche 

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