Dilemas éticos

Dilemas éticos

Claudia Miranda Gonçalves

01 de dezembro de 2020 | 10h30

Por Andréa Nery

Os estudos dos vieses cognitivos sempre me atraíram muito, não tanto do ponto de vista acadêmico e estruturado, mas do ponto de vista prático do impacto e influência nos comportamentos do dia a dia.

Este interesse começou com meu envolvimento em modelagem estatística para processos de tomada de decisão, ali já buscava evitar as armadilhas que nós, seres humanos, caímos quando não entendemos como somos influenciados por crenças, desejos ou ruídos mentais.

Depois, com um papel de liderança em um ambiente predominantemente masculino, senti necessidade de me aprofundar nesta questão para entender como estimular e trazer mais diversidade para os comitês executivos e confrontar a forma de tomada de decisão exercida por mim e por meus pares. Gerar consciência para ampliar a visão.

Recentemente li uma série de artigos do Prof. Alexandre Di Micelli que trouxe uma perspectiva importante e relevante para os nossos tempos pois coloca luz na influência dos vieses cognitivos no comportamento ético. [i]

O viés cognitivo é um padrão de distorção de julgamento, como um filtro mental, que é útil para tomadas de decisões rápidas em ambientes complexos onde não existe clareza e a informação é escassa.

Mas que promove erros ao impactar nossa capacidade de fazer um julgamento racional e ao nos impedir de ter uma visão mais ampla da realidade.

Diante de um dilema tão real como a vacina para o Covid-19 tratar o tema da conduta ética e o que influencia nossa tomada de decisão se torna relevante para não dizer mandatório.

Os artigos apresentam diversos estudos e pesquisas que revelam comportamentos intrigantes e provocadores das pessoas diante de dilemas éticos.

De uma perspectiva racional tendemos a acreditar que os desvios de conduta são praticados por pessoas que de forma pensada e calculada estão cientes das consequências, porém o que se revela é que a intuição e as emoções têm um papel fundamental na tomada da decisão ética (ou antiética!).

Por isso analisar e entender o impacto dos processos psicológicos, pressões contextuais e o momento é muito importante, isso nos permite ficar mais abertos para aceitar as limitações e “armadilhas” da nossa mente e perceber que todos somos vulneráveis e, portanto, precisamos estar alertas em nossas ações.

Nossa mente opera “utilizando” um mecanismo de tomada de decisões rápidas e corriqueiras (intuição) e um outro que exige mais foco e esforço mental para resolver os problemas (razão).

As decisões deveriam ser tomadas com base na razão e na intuição, em particular as decisões com implicações éticas, colocando os dois mecanismos em funcionamento harmonioso.

Estamos sujeitos a vieses coletivos e individuais que podem nos levar a erros e deslizes do ponto de vista ético.

Fica o convite a pensar sobre as influencias a que estamos sujeitos quando diante de diferentes tipos de vieses cognitivos.

No viés de afinidadeapresentamos tendência a suportar e favorecer opinião de pessoas que pertencem ao “nosso” grupo promovendo discriminação a grupos sociais diferentes.

No viés de confirmaçãoatribuímos importância ao que já acreditamos para confirmar nossa crença – processamos as informações que nos favorecem e ignoramos os dados.

E como mais um exemplo, no viés de excesso de confiança superestimamos o poder de nossas boas intenções e subestimamos os riscos e problemas.

Diante de dilemas éticos precisamos de clareza e transparência, ao entender o que nos influencía temos que estar atentos na busca do equilíbrio entre intuição e razão e facilitar nossa conexão com os valores, princípios e propósitos.

No final do dia ética é o resultado da consciência e do impacto que geramos nos outros.

[i]https://www.linkedin.com/pulse/why-do-we-overestimate-our-ethical-behavior-limited-biases-di-miceli 

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