Em tempos de crise

Em tempos de crise

Claudia Miranda Gonçalves

27 de julho de 2015 | 12h30

 

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Nosso leitor, a quem por motivos de proteção de identidade, chamaremos de João, nos escreve contando que está desempregado.

Formado em engenharia e com duas pós-graduações, boa experiência profissional, sente que está sem plano B ou C.

Sente que precisa mudar a forma de ver as coisas e que possa pensar nos planos alternativos de sobrevivência.

 

A crise vem para todos, preparados ou não. O que pode ajudar a ter maior chance de êxito em navegar uma crise?

Pode ser que a primeira estratégia que adotamos diante da crise seja tentar voltar ao estado anterior. Mesmo quando falamos sobre a crise, falamos em voltar a trabalhar, voltar a crescer. E a palavra voltar  pode rapidamente conectar nosso cérebro com o passado. Uma referência de um tempo bom e para a qual queremos voltar o mais rápido possível. Assim corremos o risco de desenharmos nossas estratégias com o foco no que já foi. Qual a chance de sucesso nisto?

Como normalmente bolamos estratégias para voltar ao estado bom, nosso cérebro sequer cogita que pode haver benefícios e não apenas custos na crise!  Claro que o primeiro pensamento é de que a crise nada traz de bom. E este pensamento nos impede de ter um novo olhar sobre a crise.

Faça este exercício: pesquise as oportunidades disponíveis, mesmo que não pareçam ideais para você. Um exemplo pessoal: quando eu estava em meu último ano da faculdade, ao final do ano fui desligada da empresa onde trabalhei por um ano. Primeiro, entrei em pânico, pensando nas contas a pagar e como faria para arcar com o alto investimento de montar meu consultório de psicologia! Minha primeira ideia foi a de buscar outro emprego parecido, que me permitisse voltar ao meu planejamento até então. Mas em seguida pensei “O que mais posso fazer?”. Conversei com pessoas diferentes, olhei jornais, pesquisei. Foi importante também ter clareza das minhas necessidades. Naquela época não havia crise econômica, mas eu precisava ter flexibilidade de agenda para poder conciliar com o então incipiente consultório. E neste momento comecei a explorar as oportunidades presentes, mas que antes estavam fora da minha visão, pois antes eu só “via” um tipo de emprego.

Também pode ser interessante tentar – o máximo possível – sair do julgamento sobre a crise, lugar em que nos colocamos como menos capazes, impotentes, vulneráveis – e analise fatos. Você verá que não é tão fácil assim separarmos julgamentos de fatos.

Exemplo:

Julgamento:  O mercado não contrata profissionais de 50 anos.

Fato: Eu tenho 50 anos e estou desempregado; ou Conheço João, que tem 50 anos e está desempregado.

Quando tomo o julgamento como realidade, vejo o mundo com esta lente e ajo de acordo com o que vejo. Me preparo mais para a dificuldade ou o fracasso. Se consigo uma entrevista de emprego em tempos de crise, será útil pensar que está tudo difícil e que há uma crise? Como me comunico quando estou com este estado de espírito? Se eu estivesse do outro lado, gostaria de conversar com alguém que se sente impotente, depressivo? Daria o emprego a esta pessoa com baixa energia e possivelmente pouco conectada comigo? Quando estou pensando que a crise torna minha vida difícil, o que transmito para as pessoas? Se eu estivesse do outro lado da mesa, como me sentiria ouvindo alguém com este estado de espírito?

Quando tomo o fato, talvez possa ter mais possibilidades: Estou desempregado – isto é um fato; posso pesquisar o que há no mercado, conversar, estar aberto e curioso para ver eventuais oportunidades. Colher fatos pode ajudar a entender o presente. O difícil é separar fatos dos julgamentos. Quando conversamos com as pessoas em busca de fatos, temos muitas vezes julgamentos no lugar disto. Mas se consigo ver os fatos, e se busco uma diversidade de olhares, poderei ter uma nova visão e ação.

Por exemplo, se vou tomar café com um amigo e começo perguntando “E a crise, hein?”  já dito o ritmo e colorido da conversa. Posso, por outro lado, estar curioso e procurar entender o que este meu amigo faz no trabalho, pedir que descreva suas atividades e setor de atuação.  Você pode pensar, “Mas pra quê fazer isso? O que vou ganhar com isso?” Precisamos de pontos de vista diferentes, realidades diferentes, se quisermos mudar a nossa. Se apenas busco o que já conheço, se repito o que já sei, o resultado será o mesmo.

Por isso, buscar ampliar sua consciência sobre quais as mudanças que realmente estão acontecendo com a crise, se admitir que esta é agora a sua realidade, poderá começar a ver as diferenças; o que mudou? E ver quais oportunidades se desvelam quando sai do nevoeiro da confusão e começa a ver o contexto aqui e agora. Com isto pode começar a ter mais chances de sucesso. Se ficar relembrando a experiência passada, vai ver soluções que funcionaram naquele contexto, mas que bem podem falhar no atual. Importa muito olhar o contexto atual.

Ao olhar o contexto atual, pode também começar a se conectar com as novas possibilidades. Algumas pessoas conseguem ‘farejar’ as tendências, o futuro emergente, pois estão com a mente aberta, o coração aberto e a vontade aberta, nas palavras de Otto Scharmer.

Então, como navegar esta crise?

Passo 1: ver o contexto como ele é; buscar fatos, coletar dados e cuidar dos julgamentos.

Passo 2: desapegar-se do passado; buscar voltar no tempo pode não funcionar agora.

Passo 3: abrir-se (coração, mente e vontade) para experimentar algo novo, conectar-se com o aqui e agora e buscar o que o mercado necessita agora/ o que pode oferecer para este mercado de agora?

Passo 4: conectar-se com os novos elementos do contexto atual para traçar novas estratégias e conseguir se conectar com as tendências.

Passo 5: Quem você precisa ser para criar este futuro?

 

Esperamos sinceramente que estas provocações ajudem a refletir e ter novas estratégias num momento de dificuldade profissional. Temos plena consciência do quanto a situação pode ser difícil, mas também acreditamos que ter uma resolução em buscar a solução é fundamental.

Mais uma vez, obrigada e esperamos que continuem nos mandando casos, situações, tanto de carreira como de negócios para que possamos perguntas novas e diferentes!

 

 

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