Empreender: um caminho em busca do outro

Claudia Miranda Gonçalves

15 Outubro 2018 | 10h47

Sim, empreender é buscar o outro. É querer ter mais gente no seu barco. É poder trocar ideias, rever planos, aprender que nem só você é cheio de razão.

Empreender é aprender a ouvir, é ter que se fazer entender, é criar competências para explicar o seu ponto de vista.

Empreender é aceitar, é agradecer, é reverenciar o outro – suas ideias, suas contribuições.

Empreender é equilibrar o que está dentro e o que está fora. É aprender a ceder, a ganhar e a perder.

Empreender é aprender a lidar com as dissonâncias, é um lindo exercício de auto temperança. É aceitar diferenças.

Empreender é ter força de construir o novo, de fazer acontecer, de ir em busca de um propósito.

Empreender é mudar o mundo.

Parcerias dependem do engajamento de todos

Nosso texto bem que poderia acabar por aqui, afinal as frases acima já dão o que falar. Mas, não, hoje quero continuar um pouco mais e contar a minha história como empreendedora. Justifico: é que vivem me perguntando como as coisas aconteceram comigo, que conheço muitas histórias e encorajo tantos a empreender e a crescer de forma mais sistêmica. Assim, apesar do desconforto, aí vai a minha história.

Comecei como uma profissional liberal, sozinha, sem muitas rotas já traçadas. Vivia feliz e confortável no meu mundo até descobrir que eu estava me escondendo atrás do meu próprio sucesso, em um papel de suporte. Era cômodo estar ali sozinha. Era fácil ajudar as pessoas a realizar sonhos, no entanto, eu mesma não estava olhando para dentro e não me permitia fazer a incômoda pergunta:

E você, Cláudia? Qual é o seu sonho?

Essa pergunta apareceu durante um curso on line, que também provocou os vários coaches que estavam ali. Ao me abrir para responder, descobri que o meu sonho era ter outras pessoas comigo, ter um material de apoio diferente de tudo o que já existia, ter mais leveza e fazer diferente. Conclui:

O meu sonho é provocar mudanças.

E foi isso que eu fiz. Procurei parceiros e comecei a provocar mudanças. E foi um sucesso. Deu tão certo, que não foi legal. E sabe por que? Porque eu deixei de fazer o que eu mais gostava para gerir, apagar incêndios, cuidar das burocracias. A velha história de 9 entre 10 empreendedores. Chegamos lá, mas nos embaraçamos na gestão. Mas, voltando à história: sim, a minha primeira empresa foi um sucesso, tanto para mim quanto para os meus parceiros, mas ela não tinha a força de um sonho. Parei, de novo, para pensar e foi aí que descobri que o meu sonho era mais do que provocar mudanças, o meu sonho era maior. O que eu queria mesmo era transformar.

Um pouco mais de reflexão e eu entendi que isso (transformar) é coisa que não se faz com parceiros. Quem quer transformar precisa de sócios, de escala, de coragem para olhar para todos os lados, de braços para dividir o trabalho, de impetuosidade para acreditar na inteligência coletiva e para beber “do próprio veneno”.

Foi aí, nesta provocação, que nasceu a Ikigai (que em japonês significa razão de ser). Nossa empresa não sou eu, não são minhas sócias. Nossa empresa é mais do que nós; é propósito, é sistema. E quando descobrimos isso, fomos muito além do planejado e temos sido fortes para enfrentar todos os grandes desafios de quem se aventura. É, beber do próprio veneno foi bom demais. Dragon Dreaming, Visualizações Sistêmicas, Círculos de Transformação de Conflitos…pense em todas as técnicas sistêmicas (as que funcionam com sistemas vivos e dinâmicos). Vivi todas na pele e na carne. Depois disso, passei a fazer os trabalhos com clientes de um novo lugar, em uma empatia mais profunda de quem já percorreu algumas vielas tortas, avenidas de alta velocidade; de quem se perdeu e se achou.

Agora, quer saber o que aprendemos com tudo isso? Aprendemos que a nossa empresa reverbera o que somos (e, agora, sou muitas) e, por isso, ela nos conecta com o mundo. Bingo! Esse, sim, um sonho que não se sonha só. Esse, sim, um empreendimento. Ainda que o empreendimento não seja estático, pois pessoas participam por um tempo e às vezes se vão. Quer saber, também entendi que experimentar essa liberdade é bom demais. Enfim, é preciso saber dar as boas vindas, saber se despedir; saber sonhar junto e saber reconhecer quando não se sonha mais junto. É preciso tomar decisões difíceis, ter coragem de se posicionar, ter energia para mudar de ideia. É preciso ter coragem de não ter razão e de ter razão, ter humildade de confiar nas parceiras, na vida, no caminho; nos sonhos.

Então se você quer mesmo uma definição de empreendedorismo, fique com essa: empreender é transformar você em outros.

Faça esse caminho e seja muito feliz, como eu sou.

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