ESG, que novidade é essa?

ESG, que novidade é essa?

Claudia Miranda Gonçalves

28 de junho de 2021 | 12h53

Hoje é dia de convidada!

A Eliane volta ao Blog para nos trazer mais conhecimento sobre o ESG.

Eliane Olivieri Tarrit

Head de Sustentabilidade & ESG da Agir Social, pós graduada em Gestão de Responsabilidade e Marketing Socioambiental pela Universidade Estácio (RJ), com diversos cursos internacionais (Pensar e agir em Complexidade (Chaire Edgar Morin) e Relatórios Extra Financeiros na ESSEC, França; Desenvolvimento Sustentável na CNAM, França; Desenvolvimento Sustentável e Gestão Responsável na Universidade de Laval, Canadá), é consultora formada pelo GRI Certified Training Program e tem formação em Relato Integrado.

 

Em meio à crise sanitária que se instalou no mundo desde 2020, a sigla ESG vem ganhando espaço na mídia e no universo corporativo brasileiro. Alguém menos familiarizado com o contexto poderia afirmar que se trata da moda do momento, um fenômeno passageiro. Só que não. A sigla ESG, que hoje é pauta incontornável em qualquer conselho de administração e reunião de diretoria, veio para ficar e vai invadir a praia de todos os departamentos da empresa. Mas de onde veio essa novidade?

ESG é abreviação da língua inglesa para environmental, social, governance, em português: ambiental, social e governança corporativa. Todavia, devemos ampliar um pouco o olhar para compreender o alcance real dessas três letrinhas no cotidiano e no futuro das empresas, como chegamos até aqui e por que isso afeta todos os setores da economia.

De onde veio a ideia de ESG?

Cada vez mais presente nos discursos dos CEOs e executivos de grandes empresas do país, muito além do cenário das finanças e investimentos, onde tem suas raízes, a sigla não se vincula a um conceito novo. A origem do termo se fundamenta na definição de desenvolvimento sustentável, introduzida em 1987 no relatório “Nosso Futuro Comum”, da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU1.  Até então, a limitação dos recursos naturais e o impacto corporativo no meio ambiente eram temas abstratos e raramente objeto de estudos. Em 1994, o sociólogo britânico John Elkington popularizou o conceito Triple Bottom Line – o Tripé da Sustentabilidade – reunindo três pilares que deveriam nortear a organização da sociedade e a gestão das empresas: Pessoas, Planeta e Prosperidade, os 3 Ps da sustentabilidade. Elkington apresenta uma relação de complementaridade entre os três elementos do tripé2.

O Tripé da Sustentabilidade de John Elkington

No início de 2005, o então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, responsável pela criação do Pacto Global, convidou um grupo dos principais investidores institucionais do mundo a participar de um processo de desenvolvimento de diretrizes para investidores. Os Princípios para o Investimento Responsável3 foram lançados em abril de 2006, na Bolsa de Valores de Nova York, conclamando os investidores a pautarem suas decisões com base em critérios ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG), além dos critérios econômicos. O investimento responsável, ou sustentável, deve adotar uma abordagem de longo prazo que leva em consideração os critérios ESG nas decisões de alocação de ativos, seja individualmente ou por meio de fundos.

Índices de sustentabilidade: as boas práticas ESG

Nesse contexto, as principais bolsas de valores do mundo criaram índices de sustentabilidade para qualificar empresas com boas práticas ESG e uma gestão responsável. No Brasil, desde 2005, a B3 (antiga Bovespa) adota o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial), visando criar um ambiente de investimento compatível com as demandas de desenvolvimento sustentável4. Decorridos mais de dez anos da criação do DJSI (Dow Jones Sustainability Index), o primeiro índice de desempenho não-financeiro para empresas cotadas a nível global, alguns estudos do setor sugerem que o desempenho financeiro dos investimentos ESG aparenta ser semelhante ou superior ao dos índices tradicionais5. Mas o mais importante é que, para integrar tais carteiras, as empresas devem evidenciar suas práticas de gestão dos aspectos ESG, possibilitando ao investidor avaliar os riscos a eles relacionados.

Os riscos ESG e o recado da Black Rock

Foto: Crescioli – Pixabay

Assim, considerar os riscos de natureza ambiental, social e de governança corporativa é cada vez mais relevante para os investidores. Mas se o tema vem evoluindo há vários anos, por que em 2020 ganhou tanta relevância?

O último Relatório de Riscos Globais6, publicado este ano pelo World Economic Forum em parceria com Marsh McLennan, SK Group e Zurich Insurance Group, apresenta os riscos mais prováveis e de maior impacto para a economia a nível mundial, que são predominantemente de ordem ambiental e social. Quando observamos a evolução desse monitoramento, podemos constatar que, desde 2016, os riscos vinculados ao aspecto econômico vêm perdendo relevância. Em 2020, eclode ainda a pandemia da covid-19, posicionando “doenças infecciosas” – como o risco número 1 em 2021.

Contribuiu igualmente para a “onda” ESG de 2020, amplificada pela mídia e analistas de investimentos, a carta anual endereçada por Larry Fink aos clientes da Black Rock, o maior fundo de investimentos do planeta. Em seu texto, Fink comemora o alcance da meta de 100% dos portfólios ativos e de consultoria integrados ao ESG5, enviando uma mensagem inequívoca sobre a tendência do mercado financeiro.

OrnaWachman_Pixabay

As significativas consequências do advento da pandemia certamente contribuíram na percepção de como os impactos oriundos de fatores ambientais e sociais podem afetar as pessoas e a atividade econômica, evidenciando igualmente a interrelação entre os diferentes aspectos da nossa sociedade.

Os riscos relacionados ao meio ambiente tornaram-se mais concretos e iminentes, a exemplo dos efeitos das mudanças climáticas e das consequências do descarte de resíduos na natureza, problemas para os quais ainda buscamos soluções. O impacto desses fatores e sua mitigação ganharam a pauta dos grandes fóruns internacionais.

GerdAltmann_Pixabay

As questões sociais têm revelado seu potencial de impacto na atividade e desempenho das empresas. Governantes de todas as nações tentam encontra a fórmula ideal para minimizar a degradação da economia decorrente das medidas restritivas necessárias para reduzir o contágio da covid-19. O modelo de consumo foi afetado e muitas empresas sofreram graves perdas ou desapareceram. Pudemos observar ainda, recentemente, o desenrolar de incidentes relacionados à diversidade e racismo em diversos países, envolvendo empresas e poder público, e sua repercussão na sociedade.

Por outro lado, as práticas de governança corporativa8 evoluíram e a transparência tornou-se um fator essencial a partir de 2001, com a descoberta de fraudes no mercado financeiro cometidas pela empresa americana Enron9, que gerou um efeito dominó, com a constatação de práticas de manipulação em várias outras empresas, não só norte-americanas, mas no resto do mundo, resultando em uma grave crise de confiança. Diversos países já instituíram legislação para a publicação pelas empresas de resultados relacionados à sua performance extra financeira.  No Brasil, trata-se de uma exigência da CVM para as empresas listadas na B3 e, caso não publique, a empresa deve explicar por quê. A publicação do relatório extra financeiro – relatório de sustentabilidade ou ESG – vem sendo incorporada à rotina das grandes empresas que adotam, em sua maioria, as Normas da GRI (Global Reporting Initiative)10 e o formato do (Integrated Reporting)11.

O mercado já percebe a conexão entre ESG e riscos para o negócio

Pexels_Pixabay

Diante de todos esses fatores e a partir da relevância crescente dos riscos à economia relacionados ao aspectos ESG, o mercado finalmente assimilou o conceito de Elkington do Triple Bottom Line, integrando ao pilar econômico os aspectos ambiental e social, e valorizando a gestão responsável de todos por meio da boas práticas de governança corporativa. As empresas atentas ao movimento dos investidores passaram a incluir a agenda ambiental, social e de governança corporativa em suas estratégias de gestão.

É possível  citar o filósofo Edgar Morin que, ao teorizar sobre a complexidade, afirma que o todo é mais do que a soma das partes, porque compreende a relação destas entre si e com o todo12. Dirigir um olhar sistêmico sobre as interrelações entre os aspectos econômicos, ambientais, sociais e de governança corporativa na gestão da empresa, revela que são elementos indissociáveis e que o desequilíbrio na gestão de cada um desses aspectos pode levar à deterioração dos demais, inviabilizando a continuidade do negócio. Para que seja efetiva e produza resultados, tal visão deve desdobrar-se a todas as áreas de atividade e envolver a integralidade dos trabalhadores.

Introduzir na empresa a gestão dos aspectos ESG é uma questão de gestão de riscos. Finalmente, trata-se da perenidade da sua atividade.

 

  1. https://brasil.un.org/pt-br/91223-onu-e-o-meio-ambiente
  2. John Elkington. Sustentabilidade: Canibais com garfo e faca. M.Books, 2020.
  3. Princípios para o Investimento Responsável da ONU: PRI | Home (unpri.org)download (unpri.org)
  4. http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/indices/indices-de-sustentabilidade/indice-de-sustentabilidade-empresarial-ise.htm
  5. “ESG Investing: Practices, Progress and Challenges”, OECD Paris,
  6. World Economic Forum . The Global Risks Report , 2021.


e https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2021

  1. Carta de Larry Fink aos Clientes, 2021. https://www.blackrock.com/br/2021-blackrock-client-letter
  2. IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. https://www.ibgc.org.br
  3. Schmitt, Cecília. Entenda o Caso Enron. Disponível em http://www.solidus.com.br, 19 de março de 2002.
  4. https://www.globalreporting.org/
  5. https://integratedreporting.org/
  6. Edgar Morin. Introdução ao Pensamento Complexo. Ed. Sulina, 2015 (5ª ed.).

 

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