Inovação e Consciência

Inovação e Consciência

Claudia Miranda Gonçalves

27 de abril de 2016 | 14h56

Em um Mundo VICA (Volatilidade + Incerteza + Complexidade + Ambiguidade) parece ser aceitável pensar que tudo ou quase tudo pode ser revisto ou desmontado.

O novo mantra corporativo para lidar com este mundo VICA tem sido inovar, ser “disruptivo”. Vivemos na era da inovação e nos fazem crer que é a chave para garantir o futuro.

Bom… Google a pergunta e serão milhares de sugestões e artigos de como inovar, como fazer com que a inovação venha a tona.  Ler tais artigos parece algo exaustivo e complexo, porque passam por tantos aspectos que deixam qualquer pessoa atordoada. Dá uma olhada na tabela abaixo, onde fizemos um crowdsourcing para tentar definir INOVAÇÃO em termos de sua Origem, seus Processos e seus Resultados:

origens atribuídas à inovação

origens atribuídas à inovação

processo de inovação

processo de inovação

para que da inovação

para que da inovação

Das três colunas, a última é a que tem maior convergência entre os termos encontrados. Ou seja, muitos concordam sobre porquê inovamos, queremos resultado. Empresas que não conseguem resolver seus problemas, que não crescem, que não tem vantagem competitiva fatalmente não sobrevivem. Morrem. Assim, presumivelmente, dada a escolha entre inovação ou morte, fica fácil escolher.

Se nos movermos da terceira para a primeira coluna, os termos encontrados relacionados as origens da inovação são os mais diversos possíveis e  com abrangências muito variadas. Não fica difícil indagar se os problemas de quem busca inovar não começam aqui, nesse caminho inicial.

E então? Escolhi inovar; comprometo-me com isso. O que faço agora? E daí aparece esta infinidade de sugestões e artigos às vezes até contraditórios. É revolucionário; é evolucionário; é novo… tem que ser incremental… não… o ideal é ser disruptivo… É sobre o que você sabe… não! É sobre o que você não sabe… Aff! Podemos facilmente andar em círculos, angustiados, perdidos, frustrados.idea-and-innovation-concept

Como tudo na vida, o difícil vem depois da vontade, ou até necessidade. Muito se fala sobre inovar nos vários níveis da organização. Será que uma nova tecnologia é a solução? Seria uma nova maneira de gestão das pessoas? Será uma nova forma de fazer branding? Como afinal se inova? Se encontra a inovação?

Pois bem, o medo inicial de mudar o “status-quo” é tão justificável que a nova e fresquíssima ISO 9001 de 2015 tem como uma de suas principais novidades a análise de risco mais aprofundada. Mudar é arriscado. Então conscientemente ou inconscientemente listamos o que se “pode” mudar… Será? Os mais detalhistas vão listar possibilidades de inovação com ganhos e consequências como se pudéssemos tomar decisão desta forma. Será?

Quiçá nesse mesmo processo de temor por mudar esteja a resposta, pois escolhemos os itens que podem ser mudados com base em nossa experiência pessoal ou receios de outros, de nossa empresa, de clientes etc. E se pudéssemos mudar literalmente tudo? Seria mais fácil ou ainda mais complexo?  Limitamos demais ou abrimos demais?

Devemos lembrar que não importa quão complexo é o problema, pois em algum momento vamos ter que pesar essa mudança no todo; esse é o ponto mais importante. É quando usamos a inovação na prática, na nossa vida, no nosso negócio.

E se começarmos com o final? Se começarmos com análise livre e ampla do que está acontecendo e o que pode ser mudado de forma contundente? Para isto temos que exercitar nossa capacidade de enxergar a situação para além do que estamos acostumados. Quais são os ingredientes da situação? O que não estou olhando? Esse processo de conscientização do todo nos deixa ver de forma abrangente a situação porque não partimos dos temores e nem dos riscos. Antes, partimos simplesmente de olhar tudo o que temos e ver o que se passa. Estar consciente da situação geral e ir descendo para o detalhe aos poucos, abrindo em perguntas, desconstruindo a nossa observação e nos abrindo para a realidade mais ampla.

Assim, para navegar neste mundo VICA, vários importantes autores corporativos começam a falar sobre o uso da consciência em sua forma ainda mais ampla para nos ajudar a encontrar a solução. Buscar consciência é primeiramente olhar amplamente a situação e das formas mais variadas. É suspender temporariamente o preconceito para poder explorar aquilo que não se vê; é abrir para o novo, para aquilo que não é perceptível se estou no piloto automático. Isto equivale a dizer que se pode olhar a empresa toda e de formas que vão de sua intuição aos avanços tecnológicos mais recentes.

Definir o que é consciência não é para fracos, pois são muitos os que têm buscado esta resposta, de filósofos a neurocirurgiões famosos. De maneira bem despretensiosa, consciência é a percepção do todo e seu estado de presença, uma visão ampla sem barreiras. Seria algo como: consciência = atenção plena + presença.  Famoso filósofo David Chalmers aponta a consciência como o ponto de partida dos nossos processos mentais. O estado de presença inclui o nível somático, os sentimentos, e o pensamento. O corpo nos traz o nível somático da presença; saber onde estou e como está o ambiente. A inteligência somática vai do trivial –  saber se estou sentada, se faz calor, se tenho fome – até o sutil, via neurônios espelho, saber se o ambiente é tenso, hostil, ou alegre; se conecto ou não com as pessoas e o ambiente. Os sentimentos vieram evolutivamente para dar norte e ajudar nos processos de decisão (parece louco, eu sei, mas o neurologista Antônio Damásio mostrou com maestria que as emoções são a base do processo de decisão em qualquer criatura viva que tenha emoções). São os valores, crenças, as lentes através das quais julgamos e vemos o mundo. Finalmente, o pensamento contribui com nossa capacidade de antever, planejar, sonhar.

Usar a consciência para buscar inovação não vai lhe limitar. Ao contrário, vai ampliar o escopo e quiçá mudar algo que ninguém jamais pensou que se pudesse mudar… Aí vem o “disruptivo”. Esse processo leva a espasmos de alegria e medos que podem ser resolvidos, agora convenientemente, por análise mais cartesiana das possibilidades aventadas.

A consciência ajuda na desconstrução e assim em questionar a realidade, realidade que será passado em breve.

quem escreve:

Francisco Kommisar del Campo

Francisco Kommisar del Campo

Executivo e empreendedor, Francisco é atualmente diretor para a América Latina do start-up canadense Venus Concept, sendo que já atuou na GE Healthcare, Lumenis, Syneron, Polaroid e Ford Motor Company. Como empreendor já foi sócio e head de distribuidor da GE Healthcare, fundou e-commerce de produtos odontológicos e fundou empresa de M&A para negócios em saúde, a Vennad Capital. Francisco é formado em mecânica-aeronáutica no ITA e fez mestrado em administração da FEA-USP

Claudia Miranda Gonçalves

Claudia Miranda Gonçalves

Coach e consultora sistêmica, atuando para criação de novos modelos de gestão e novas formas de trabalho, com mais propósito e integração. Formada em Psicologia na USP, formação em coaching sistêmico e generativo e constelações estruturais e organizacionais. Atuando como coach e consultora, com experiência de + 22500 horas.

claudia@consultoriaeh.com.br

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.