Integração feminino e masculino

Integração feminino e masculino

Claudia Miranda Gonçalves

08 de abril de 2021 | 10h08

Por Luciana Sato, mãe, empreendedora em rede, coach e mentora de mulheres, facilitadora de diálogos generativos e consultora organizacional. Certificada em formação Metaintegral, Neurogestão, pós-graduada em administração e comunicação. Mais de 20 anos de experiência em grandes empresas como Bradesco, Editora Abril, Natura, Le Lis Blanc, DHL e Sodexo.

Há alguns meses minha filha, até então com 6 anos, perguntou ao meu marido: “Papai, hoje é dia dos homens?”. “Não, Júlia, por que?”. “Porque se tem um dia das mulheres, os outros dias não são dos homens?”. Parece piada pronta, mas a fala veio de um olhar infantil, que busca desenvolver sua visão de mundo.

E meu filho, há cerca de dois anos, também me questionou quando voltei de um evento em comemoração ao dia das meninas, perguntando qual era o dia dos meninos.

A reflexão aqui é o quanto a diferença de gêneros é uma construção social e um legado estrutural. Num filme publicitário estrangeiro, meninos e meninas foram desafiados a cumprirem uma tarefa. Após concluírem, ganharam recompensas distintas simplesmente por seu gênero. O espanto e a indignação fizeram com que eles mesmos tomassem a iniciativa de equipará-las.

No entanto, o olhar machista que ainda domina nossa sociedade passa a contaminar essa visão mais pura, de tal forma que essas crianças crescem e passam a ter divisões de tarefas que perpetuam essa estrutura. Assim, as mulheres continuam sendo sobrecarregadas com a tarefas ligadas ao cuidar (da casa, da comida, dos filhos, dos idosos), enquanto os homens continuam com o papel principal de provedor.

Esses vieses e esta estrutura têm sido cruéis tanto com homens quanto com mulheres. Homens não têm encontrado espaço para expressar suas emoções e mulheres que continuam reproduzindo modelos antigos de submissão e sobrecarga de tarefas.

Nas rodas de conversa dentro das organizações, temos incluído e convidado homens e mulheres com suas diferentes perspectivas, de forma a ter um olhar com mais integração. Uma conversa com mais E e menos OU, que significa procurar acolher a visão do outro, apenas como mais uma lente de se ver a realidade.

Nessa experiência, é preciso ouvir com a mente, o coração e a vontade abertos, suspendendo o julgamento. Em uma das conversas, por exemplo, um homem trouxe a importância da licença paternidade estendida, na visão de que ele como pai poderia ser muito mais presente na criação e na divisão das responsabilidades com sua esposa se tivesse esse benefício. Em outro, uma jovem líder contou sobre os desafios iniciais de gerenciar uma equipe de homens mais velhos e sua abertura em ouvi-los para que pudesse desenvolver um time que integrasse sua visão e a experiência desses colaboradores.

Para lançar as bases para uma nova cultura de inclusão e equidade, é preciso antes desenvolver um novo olhar.

Na filosofia japonesa, falamos de “shoshin”, ou mente de principiante – uma postura de estar aberta e sem preconceitos. Uma visão de que é possível integrar o que você já aprendeu, com o que pode aprender a partir da experiência do outro.

E é nesse encontro que a conexão acontece. É olhando o futuro que queremos construir em conjunto, que podemos desenvolver uma sociedade mais igualitária e sustentável.

Como diz Melinda Gates, em seu livro “Momento de Voar”: “A igualdade pode empoderar as mulheres e as mulheres empoderadas mudarão o mundo. Mas a igualdade é um marco na estrada, não é o objetivo final. O objetivo supremo da humanidade não é a igualdade, e sim a conexão. As pessoas podem viver em igualdade e ainda assim estar isoladas – sem atentar para os laços que as unem. A igualdade sem conexão não faz nenhum sentido. Pessoas conectadas se entrelaçam. Você é parte de mim e eu sou parte de você. Não posso estar feliz se você está triste. Não posso vencer se você perde. Se um de nós sofre, nós dois sofremos juntos. Isso turva as fronteiras entre os seres humanos, e o que flui através dessas fronteiras porosas é o amor. O amor é o que nos torna um só”.

 

 

 

 

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