Inteiros e desiguais

Inteiros e desiguais

Claudia Miranda Gonçalves

24 de julho de 2019 | 10h00

Adriana Baraldi

 

Não somos um fragmento, somos inteiros e desiguais.

 

Por Adriana Baraldi

 

 

Há alguns dias, recebi, como presente de um Mestre, a seguinte mensagem: “Adriana, a natureza humana sempre foi desfavorável à inovação porque segue o soma – o biológico, o corpo celular dos neurônios – mais do que a inteligência”.

Pensei muito sobre isso e sobre o impacto desta natureza sobre os recursos, as estruturas e as competências que estão nas organizações, que, por um lado, dependem da inovação para prosperar e por outro, estão agarradas em suas estruturas ‘’celulares’’, em seus fragmentos, nas divisões e nos departamentos, mais do que na inteligência pulsante nestas estruturas.

Se nossa a natureza é desfavorável à inovação, é estranho afirmar que a nossa sobrevivência depende – justamente – do criar para inovar, o que é fato, sobrevivemos porque criamos e nos organizamos; nos organizamos e criamos, continuamente, em ciclos que estão em uma dinâmica diferente da que já foi; pois mudamos, transformamos, evoluímos.

A transformação até aqui ocorreu em virtude do trabalho e de recursos que – em tempo – eram abundantes e estavam disponíveis. Mas, agora, em um ciclo cuja dinâmica é líquida e complexa, o modelo de trabalho necessário para prosperar talvez cause desconforto, pois questiona aquilo que já deu certo, gerou poder e riqueza. Mas, agora, esse modelo nos força a enfrenar o medo de mudar, de assumir consequências que se apresentam nas novas circunstâncias após tanto tempo trabalhando do mesmo modo; tomar riscos e experimentar o que é diferente.

Nada disso é parte do soma, do biológico, mas sim, parte da cultura que estamos inseridos. Isso tudo é parte de um outro soma, o biológico coletivo a que chamamos de cultura, que para nós é como o ar que respiramos.

Nas organizações, prosperar por meio de inteligência requer utilizá-la dentro de uma cultura que permita que as pessoas sejam guiadas pela razão, pelo senso e pelo bom senso, coletivamente.

Por meio da inteligência artificial, a tecnologia busca, compreender e imitar – cada vez mais e melhor – o funcionamento do corpo celular dos nossos neurônios. Porém, devemos nos ocupar também em compreender – para melhor desenvolver – nossa sensatez, nossa capacidade de bem avaliar, de sentir, de apreciar, de aprimorar nosso juízo, nosso entendimento, nossas percepções, nossos sentidos em seus diferentes significados para então prosperar.

Na maioria das organizações, o desconforto é grande e o desafio requer criar e nutrir uma cultura diferente daquela que já trouxe conforto, segurança e prosperidade.

Despreparadas para assumir riscos, estas organizações tampouco sabem lidar com o desconforto e, portanto, não viabilizam o desenvolvimento de novas formas de gestão e tomada de decisão e arriscam a própria sobrevivência.

Não há quem duvide que as circunstâncias são diferentes, mas o desconhecido em termos de gestão se apresenta e há uma tensão que, por um lado pode destruir, mas por outro pode transformar.

Transformar é preciso, pois a destruição já está acontecendo em diversos setores que outrora cresceram e fortaleceram-se em uma cultura que privilegiou a fragmentação para padronizar e para controlar, ações que nas novas circunstancias são incoerentes à demanda por criação. Para criar é preciso tolerar, ser inteiro e flexível.

Penso que se faz necessário um resgate na natureza humana, de nossas virtudes, do saber, do aprender e agir em favor do novo e do coletivo. As organizações precisam se ocupar e cuidar também de quem irá desenvolver tecnologia, as pessoas.  Saber escolher e manter pessoas a serviço do novo, este é o desafio que se apresenta, talvez mais complexo do que aquele que se apesenta para o desenvolvimento da Inteligência Artificial, um dos fragmentos.

Será preciso aprender a cultivar e a nutrir o que é do homem e da mulher, de maneira inteira, íntegra e integral. Juntar o que foi fragmentado em função do controle para então refazer as organizações em busca de estruturas flexível, ágeis, criativas e inovadoras.

Para isto será preciso aceitar que os padrões que trouxeram muito conforto, agora, também geram bastante desconforto e desequilíbrio de diferentes naturezas em virtude do desenvolvimento organizacional centrado no produto, na produção, na escala e na operação, mas não no humano. O pensar e o agir fragmentado já não traz prosperidade.

Então, que tal começar inovação pela seleção das pessoas e não somente da escolha de tecnologias?  Tratar a Inovação sob a perspectiva das pessoas, não como recursos humanos, partes dos modelos fragmentos – os departamentos.

Se você lidera uma organização que pretende inovar, não crie um departamento, uma divisão, um fragmento de Inovação, não é isto que vai fazer o trabalho prosperar. Identifique, motive e recompense todas as pessoas de sua organização e construa assim uma cultura integral em uma estrutura flexível.  Trate a ambiguidade com curiosidade, o desigual e aprendizagem trazida pelos erros com respeito e com vontade para ensinar e aprender sempre.

 

Imagem: Fractais (matemática)
Fonte da Imagem: http://www.fractal.art.pl/
Um fractal é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhantes ao objeto original, porém desiguais.

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