Máscaras

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Máscaras

Claudia Miranda Gonçalves

05 de maio de 2020 | 10h30

Por Andréa Nery

Chama-se máscara o artefato, que se destina a cobrir o rosto da pessoa que o usa, servindo de adorno, disfarce ou proteção.

Este tema tem estado no meu radar desde o início das notícias sobre o Covid-19 na China.

Com um conhecido vivendo em Shangai, e na época em isolamento por uma semana, me peguei conversando sobre máscaras: aquelas que protegem da contaminação e aquelas que usamos nos diferentes papéis em que decidimos atuar.

Entendi, desde o princípio, que a insegurança e o medo da situação nos desafiam a ser autênticos, pois fazem emergir a vulnerabilidade que fica escondida por trás das máscaras que escolhemos usar.

Desde então busquei mais informações e me dediquei a observar meu comportamento e das pessoas com quem tenho convivido neste tempo de distanciamento social.

O uso de máscaras é uma das práticas humanas mais antigas, encontram-se em fase de restauração máscaras com características humanas usadas por homens primitivos cujo uso teria ocorrido em 9000 a.C.

A máscara como equipamento de proteção tem menção registrada no século 16, quando Leonardo da Vinci sugeriu que um pano de um fino tecido embebido em água poderia proteger os marinheiros de uma arma tóxica feita de pó que ele havia projetado.

Objeto de estudo, curiosidade e atenção, elas desempenham papel fundamental no entendimento sobre o que significa ser humano!

Não encontrei relatos específicos sobre quando teríamos começado a usá-las para esconder nossa identidade, para encarnar um personagem inventado por nós mesmos para limitar nossa expressão mais verdadeira, mas tendo a imaginar que isso ocorria desde sempre…

Talvez nunca tenhamos sido capazes de nos expressar com a face limpa, sem nenhum disfarce.

E aqui quero trazer uma reflexão, pois neste momento ímpar da humanidade caberá a nós a decisão do que ficará registrado na história sobre o uso deste artefato.

Uma decisão que vai além das máscaras de proteção que seremos obrigados a usar, pois tão importante quanto o uso desta, estará a coragem para tirar as que já não nos representam mais.

Nas histórias em quadrinhos os super-heróis colocavam seus disfarces e se transformavam em algo que não eram na frente dos outros, com isso não permitiam que sua identidade e humanidade fosse descoberta. Viviam uma vida dupla que lhes gerava toda sorte de adversidades, alegrias e tristezas.

Crescemos desejando ser super-heróis, para ajudar o outro, para salvar o projeto, para ser reconhecido e elogiado, para sobreviver em terreno inóspito, para nos adequar…

Eis que, um vírus provoca um resgate da vida em e para a comunidade, e no distanciamento social entendemos que vivemos um tempo em que ser herói é dar espaço para ser quem somos.

Através da câmera das vídeo conferências, nos rendemos as pequenas e as grandes interrupções, aos barulhos do dia a dia.

E notamos que existe preocupação e interesse genuínos quando nos perguntam se estamos bem, e não temos forças nem vontade de manter as máscaras, e expressamos nossos sentimentos e nos permitimos ser vulneráveis. 

Das experiências que tenho vivido, uma das mais incríveis acontece quando um grupo percebe que não precisa se esconder atrás de nada e direciona esta energia para construção coletiva de soluções, promovendo conexão e fluxo.

Este momento marca o início de um caminho onde a coragem de agir e mudar é cocriada. No grupo enfrentam as dores de não saber quem são, mas se desnudam juntos, e se redescobrem. E já não faz sentido seguir carregando o peso de ser quem não se é!

E ai, ao sair de casa, será que além da máscara de proteção obrigatória, ainda fará sentido usar outras máscaras?

O que escolheremos?

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