Mito do Acionista e Propósito

Mito do Acionista e Propósito

Claudia Miranda Gonçalves

03 de setembro de 2019 | 10h00

Andrea Nery

Andrea Nery

O que a nova declaração de propósito das grandes empresas tem a ver comigo?

O influente grupo de 200 CEOs de grandes empresas americanas, que compõem o Business Roundtable (BRT), publicou no último dia 19 de agosto uma nova declaração sobre o propósito das grandes empresas.

Neste documento, os CEOs de empresas como J.P.Morgan, Amazon, Apple, GM, Boeing e IBM entre outras, se comprometem para o sucesso das empresas que lideram a entregar valor não somente aos acionistas, mas a todas partes envolvidas no seu processo, incluindo as comunidades e seus fornecedores.

Trata-se de uma grande mudança, já que desde 1997 as declarações deste grupo afirmavam que a razão de ser das grandes empresas era principalmente a de servir os acionistas.

Seria esta somente uma declaração politicamente correta? Seria idealismo achar que isso vai realmente acontecer? Já não existe mais espaço para ações que tenham como único foco maximizar o retorno do acionista?

A verdade é que muitas mudanças já estão acontecendo na sociedade, porém os CEOs não parecem acompanhá-las na velocidade adequada. 

A sociedade olha cada vez mais para as grandes empresas buscando e cobrando ações capazes de responder às suas novas ansiedades, e ao impacto ambiental, já mais perceptível. 

E as empresas podem sim fazer mais do que vinham fazendo até agora.

O capitalismo tradicional não serve mais à sociedade. Já são altas as novas vozes propondo “capitalismo consciente”, ” capitalismo inclusivo”, “capitalismo sustentável”, … e são vários os autores  que questionam a ideia de que as empresas devem estar engajadas em ações que primariamente gerem dinheiro aos acionistas.

Quaisquer  que sejam as respostas para as questões acima,  a realidade é que, no longo prazo, não há  como uma grande empresa ter sucesso sem investir em  seus empregados, comunidades, e transparência de suas relações com fornecedores.

Finalmente, estamos acordando para a necessidade de um olhar sistêmico ao propósito de uma empresa.

É preciso deixar de lado o propósito unilateral, quando se  negligencia outras partes de um sistema, ou o propósito que não está relacionado aos verdadeiros anseios e necessidades de todo o sistema atrelado. 

É preciso a conscientização de que, como em uma grande rede, afetamos todos as outras partes ainda que de forma sutil.

A nova declaração dos 200 CEOs aponta para um propósito pautado na prosperidade, mais inclusivo.

Ela pretende direcionar e influenciar as principais decisões tomadas nas grandes empresas participantes da BRT, e pode trazer um impacto na visão de curto prazo que tem regido muitos dos posicionamentos assumidos com objetivo de maximizar o lucro do acionista independentemente dos outros participantes  do sistema.

Nós, como sociedade, não podemos  seguir de braços cruzados somente observando as alterações tecnológicas, as mudanças climáticas e delegar a responsabilidade de realinhamento a nova realidade às grandes empresas.

Podemos cobrar transparência nas ações, podemos avaliar de quem compramos nossos produtos, como gastamos nosso dinheiro e como decidimos nossos investimentos. Temos que agir de forma mais consciente em favor de todo sistema a que pertencemos.

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Nos cabe mostrar aos investidores/acionistas que as empresas que estão construindo valor no longo prazo, e que ampliaram seu propósito, são as empresas que queremos em nosso sistema. 

Nós precisamos insistir que todos sejam vistos e contemplados, que não existam exclusões e que gradualmente sejam desatados os nós que hoje apontam para um futuro insustentável.

Sim, somos todos parte de um todo; acredite que cada movimento como indivíduo irá afetar este todo. Portanto, se proponha a fazer a sua parte, ainda que você também só colha os frutos no longo prazo!

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