Navegar ainda é preciso

coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Navegar ainda é preciso

Claudia Miranda Gonçalves

25 de agosto de 2020 | 10h00

Hoje retomo aqui o primeiro post que deu origem ao blog Lentes de Decisão. Nesses cinco anos (sim!!! tudo isso!!!) de publicações trouxemos, na maior parte do tempo, indagações, provocações e reflexões através de lentes sistêmicas. Se quiser matar a saudade ou tem curiosidade sobre o primeiro texto aqui do blog clique aqui.

Gostaria de trazer para cá o trecho em que exploramos a diferença entre as preparações de Amundsen e de Scott para viver a mesma aventura: chegar ao Polo Sul.

“Ambos tiveram condições quase idênticas.

Por vários anos, Amundsen se preparou para a expedição. Pedalou de bicicleta da Noruega até a Espanha para ficar forte e com bom condicionamento físico.  Depois, viveu um tempo no Ártico para aprender com os esquimós, a quem considerava os melhores mestres a enfrentar as condições a que se submeteria.  E quando iniciou a viagem, Amundsen levou quatro cachorros, não só como um termômetro importantíssimo de sobrevivência, mas como membros de sua equipe de expedição e provisionou comida de tal forma que ele e sua equipe poderiam sobreviver por um ano além do previsto para a expedição.

Scott, por sua vez, calculou os suprimentos de modo que fossem suficientes sem  acontecimentos imprevistos (porém, ambos sofreram imprevistos). Em lugar de cachorros levou pôneis, que depois de pouco tempo começaram a suar e com isto morreram congelados logo nas primeiras semanas. Consequentemente a equipe precisou puxar os trenós.

Amundsen se preparou profundamente, aprendeu com os melhores, calculava o que poderia dar errado e planejou incluindo as precauções referentes. Por outro lado, Scott acreditava que tudo ia dar certo. Ele morreu congelado junto com sua equipe mais ou menos 10 km antes de chegar ao próximo campo de base.”

Agora sigamos, nós, aqui em 2020, ainda com a frase do general Pompeu, e depois verso de Fernando Pessoa e ainda música de Caetano Veloso: 

“Navegar é preciso. Viver não é preciso.”

Essa lindeza de verso, com sua ambiguidade tão explícita, nos provoca a refletir sobre o termo preciso. Para Pompeu, navegar era maior que a necessidade de viver; para Pessoa, criar era maior que a necessidade de viver. Para nosso blog, “preciso” veio de precisão, exatidão, justeza.

Parte de nosso mundo é precisa e exata. Mas a vida escapa de qualquer tentativa de ser afixada num quadro. E aqui no Lentes de Decisão buscamos, ao longo desses anos, despertar o potencial de sermos Amundsen na vida. O nosso olhar para as decisões tem o desafio de navegar contextos que se sobrepõem, onde precisamos acolher a ambiguidade, sustentar a complexidade, experimentar e iterar soluções. E nessa complexidade formada por diversos contextos, como o ambiente e elementos externos, que podem afetar ou ser afetados pelas decisões, tais como o mercado, os concorrentes, os clientes, o meio ambiente, a legislação, quaisquer incidentes – navegar é preciso (necessário). E para tanto precisamos ter prontidão. 

Amundsen e sua equipe tinham essa prontidão. Ele foi um líder que garantiu que sua equipe estivesse preparada para o que acontecesse. Por isso citei aqui o trecho referente à preparação para a aventura. Enquanto liderança baseada na realidade, a estratégia de Amundsen foi primeiramente descobrir o máximo que podia sobre o que iria encarar, descobrir quem lhe poderia ensinar coisas mais próximas do que iria viver e pensar em tudo que poderia dar errado. Não era pessimismo.  Um pessimista jamais faria essa aventura! isso é prontidão. Isso é presença. 

desejo a todos uma semana com bastante presença!

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: