O corpo que pensa e imagina

O corpo que pensa e imagina

Claudia Miranda Gonçalves

11 de maio de 2021 | 14h48

Mais uma vez, recorro aos artistas! Hoje trago Rumi (sou fã de carteirinha) para nos ajudar a resgatar o limiar: entre arte e pensamento, entre abstrato e concreto, entender como a alma habita um corpo e como, como uma inspiração habita um negócio, como um negócio pode inspirar pessoas e sociedade. 

As brisas da madrugada têm segredos para lhe contar

Não volte a dormir!

Você deve pedir aquilo que realmente quer.

Não volte a dormir!

Pessoas vão e vem 

através da soleira da porta onde dois mundos se tocam

A porta é redonda e está aberta 

Não volte a dormir!

 

Numa linguagem poética, que vai além do retrato do cotidiano, Rumi nos dá pistas sobre as interrogações da vida. A poesia nos abre a porta para dizer as mesmas coisas mundanas e cotidianas de outra maneira. E assim abre um outro mundo. Não volte a dormir!

 A madrugada, a soleira da porta onde dois mundos se tocam, são imagens que evocam o quase: o quase-dia ou o quase-noite, o quase-aqui ou o quase-ali. E dá uma pista sobre como cruzar a soleira, como estar desperto: Você deve pedir aquilo que realmente quer

Rumi nos revela, em 8 linhas, onde está a liberdade. Revela que ela é parte imagem e parte ação. A liberdade vem da imaginação que percorre a espiral infinita de passar a experiência corporal, pois o corpo é a soleira da porta entre dois mundos, à experiência da alma, com sua riqueza de sentimentos e pensamentos que traduzem as sensações. 

“A liberdade é esse movimento através do qual somos capazes de transcender, ultrapassar as condições de fato nas quais nos encontramos e dar a elas um sentido novo que elas não tinham sem essa ação.” Assim nos esclarece Merleau-Ponty.

E aqui a noção de constelação se faz importante, pois não há como algum desses mundos se impor como primeiro como numa sucessão. E cada constelação procura abordar momentos importantes e resume experiências através da soleira da porta entre os dois mundos: o corpo. É o corpo que traduz o que vem das sensações, do físico e concreto em energia sutil, em abstrações e pensamento. E, de outro lado, também é o corpo que dá vida aos pensamentos – que podem ocorrer verbalmente, por cores, formas, sons e cheiros e mais – através de sua transformação em ação. É no corpo que nasce a imagem de um lado e a ação do outro. A imaginação se processa no corpo que pensa e sente.

E sendo a porta apenas acesso/ transição de um e outro mundo, aquilo que passa por essa porta  é sempre um relance. Por isso, Não volte a dormir!

Mais do que inspecionar nossas próprias ideias, a introspecção e autorreflexão devem incluir e se beneficiar das informações valiosas sobre o ambiente que o corpo captura. O corpo é o explicador / tradutor. As imagens concretas em si interessam menos que a energia de formação das imagens. 

“Imaginar é sempre fazer aparecer o ausente num presente; dar uma quase-presença” Merleau-Ponty.

Eis aí o ponto onde arte e negócios se encontram e como a arte pode inspirar negócios. É preciso imaginação, cruzar o limiar de pensamento para ação do corpo que constrói. É preciso prototipar, trazer ao presente o que está ausente: criar.

Então, os negócios que se vêem como sucessão de processos, planilhas com números, racionalidade, vão carecer de vida e portanto de evolução. E assim também os empreendedores de boteco, que entre um gole de cerveja e outro resolvem problemas e criam novas start-ups, podem não passar de videntes, pois suas ideias carecem de ação para materialização. 

É de nossa natureza humana, no limiar desses dois mundos de que Rumi fala, que nascem o pensamento, a arte, e a indústria (em seu sentido amplo).

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