O que eu vejo, o que você vê

O que eu vejo, o que você vê

Claudia Miranda Gonçalves

03 de novembro de 2021 | 14h45

Por Andréa Nery

“A conversa habita no espaço entre as pessoas e o espaço se abre quando não estamos tentando capturar a informação seguinte.”

Hoje quero falar sobre diálogos.

No dia a dia nos vemos com frequência em situações difíceis, quer nas nossas relações pessoais ou profissionais. São tensões que surgem de diferentes pontos, por desejos diferentes, por divergência de ideias, por compartilhamento de recursos, por interdependência de atividades… e o diálogo é a solução para muitos destes desafios.

Porém, quando não fugimos e evitamos a situação, a enfrentamos de forma mecânica, buscando causas e culpados, focados na ideia de que existe um certo e um errado. Funcionamos centrados nos problemas e cegos para o outro e esquecemos do espaço que precisa existir para o diálogo.

Automaticamente acionamos um modelo mental que responde rapidamente, sem esforço, mas também sem consciência, uma forma de agir resultante de contextos diversos que já não nos servem mais.

Nos relacionamos através de um ciclo vicioso que precisa ser quebrado.

O espaço entre as pessoas, onde se dá o verdadeiro diálogo, deve ser intencionalmente criado para que exista a possibilidade da transformação, para que surjam novas ideias, para que se aceite o que é, ou para que se encerre um ciclo.

Quando colocamos atenção nas situações que nos afligem vemos que são de natureza humana, surgem de nossas necessidades essenciais, e que para serem atendidas, estimulam e provocam movimento e ação. Mas, quando respondemos de forma automática e mecânica, nos desconectamos das soluções capazes de gerar o ganha-ganha.

O caminho para romper este ciclo está em reconhecer a humanidade em cada um de nós. Mas afinal, o que seria reconhecer esta humanidade em nós?

Das maravilhas de sermos quem somos está o fato de que somos únicos, exatamente como a impressão digital.

Nossa necessidade é moldada a partir de nossa história de vida, da experiência particular e dos contextos que nos trouxeram até aqui, e isso é ser humano.

Quando entendemos a profundidade que isso representa vamos aumentando a consciência de como as crenças, valores e cultura influenciam nossas ações e começamos a perceber o que fazer para estabelecer um diálogo corajoso.

Este entendimento permite transformar de forma consciente nossa fala e nossa escuta, e nos ajudar a criar resiliência para perseverar no caminho da quebra deste padrão.

O que eu vejo de uma situação é uma visão particular, por isso ao expressá-la preciso trazer minha verdade, ter a coragem de acessar o que realmente me incomoda e o que quero, ter uma intenção clara. Isso implica em aumentar a percepção sobre mim mesmo, entender meus limites, e deixar que o outro me veja como eu sou.

O que o outro vê é a percepção a partir de sua realidade, por isso ao escutá-lo preciso estar preparado para ir além das palavras, aumentar minha percepção sobre o outro, preciso observar gestos e ações, fugir das interpretações e julgamentos, buscar clareza e, vê-lo como ele é.

A maior armadilha neste processo é acreditar que compreendemos o que vem do outro, através da nossa história e deixar as palavras aprisionadas, usar esta identificação para assumir nossa verdade na realidade do outro.

No espaço entre as pessoas a verdadeira troca e compreensão é possível quando deixamos as palavras livres de suas caixinhas, quando buscamos seus significados únicos e particulares, e criamos as condições para que sejam expressas, esclarecidas e compreendidas.

E é assim que o que eu vejo, e o que você vê têm a possibilidade de se transformar, de habitar o espaço do diálogo e gerar a consciência que cria a possibilidade real da solução.

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