o tempo e seus tempos

o tempo e seus tempos

Claudia Miranda Gonçalves

27 de julho de 2021 | 09h40

Como otimizar e usar o tempo, como ser mais eficiente e produtivo, ou como extrair o máximo de um recurso finito? Essa obsessão com o tempo invadiu a gestão dos negócios e se infiltrou igualmente em nossas vidas pessoais. 

A gestão do tempo nas organizações é, muitas vezes, simplificada demais. A abordagem linear, focada em eficiência, não se sustenta atualmente. O tempo é mais complicado e mais interessante.  O tempo adquire curvas, voltas e reviravoltas quando incluímos mais variáveis: à produtividade, cujo ponto de vista é do produto (lucro), somemos o tempo pessoal  (restauração) de quem trabalha. Além do Kronos – tempo cronológico – as organizações precisam aprender a lidar com o Kairós – tempo criativo. 

Ao longo dos últimos 10 anos diversos experimentos desafiaram o senso comum de que produtividade implica em longas horas de trabalho.  Trabalhar menos horas é mais produtivo em tarefas intelectuais, no campo médico, na construção civil… Cada um se torna um profissional melhor – mais seguro, criativo, astuto e alerta – quando não está exausto, nas palavras de Anne Helen Petersen. 

A Islândia realizou um estudo de 4 anos com servidores públicos, reduzindo a jornada de trabalho para 35 horas semanais. Os resultados: nenhum declínio nos serviços, porém aumento de satisfação com o trabalho e redução de estresse.  Os participantes neste experimento finalmente tiveram tempo e energia para hobbies, exercício físico, amigos e família. Esse tempo pessoal significou respeito e humanização, pois considera que os colaboradores são pessoas com desejos e vida pessoal. 

Os autores do relatório desse estudo de 4 anos usaram uma palavra interessante para descrever a mudança do equilíbrio vida-trabalho: as pessoas disseram que estavam se aproximando de algo próximo a harmonia. 

Harmonia sugere que cada parte da vida suporta e complementa a outra: dá para ser melhor no trabalho por causa da pessoa que consegue ser fora do trabalho e vice-versa. A harmonia resulta de se poder nutrir uma área da vida que muitos de nós permitimos, ou fomos forçados, a deixar murchar. 

Mas, chegar nessa harmonia dá trabalho: os autores do estudo islandês reiteraram que o sucesso da redução exigiu tempo, comprometimento, e engenhosidade das agências públicas incluídas no estudo para descobrir como fazer com que as novas escalas de trabalho funcionassem.  

Uma delas foi descobrir como fazer o trabalho concentrado em suas novas e reduzidas horas de trabalho, seja reavaliando como lidavam com reuniões, ou eliminando intervalos que eram necessários para jornadas mais longas para torná-las suportáveis.

Dá trabalho reavaliar o status quo, mas é mais arriscado não fazer nada. 

Do ponto de vista mais pessoal, será que você tem tempo livre suficiente? Não é suficiente ser produtivo ou imaginar que aplicativos de gestão de tarefas e projetos solucionam nossa pobreza de tempo pessoal. Também não ajuda disparar e-mails para todo mundo na tentativa de otimizar sua própria produtividade. E se, no lugar disso, tentássemos desperdiçar menos o tempo uns dos outros?

 

Para refletir sobre as diferenças que o tempo tem:

Kronos

5 minutos: tempo ideal para telefonemas, que são menos complicados que e-mails para assuntos sensíveis ou complicados.

10 minutos: suficiente para uma revisão de desempenho, de acordo com a Harvard Business Review.

18 minutos: é a duração de um TED talk:  “Ao forçar os palestrantes acostumados a 45 minutos a fazer caber em 18 minutos,   eles realmente pensam no que querem falar”, de acordo com o curador de TEDs  Chris Anderson. “tem um efeito esclarecedor e traz disciplina.”

30 minutos: De acordo com coaches para palestras, 30 minutos é suficiente para ser substancial e não permitir que a audiência pegue no sono. 

1 hora: Tempo suficiente para malhar  45 minutos e uma chuveirada.  

2 ou 3 horas: Ideal para um coquetel.  

2 anos anos: Um estudo do Bureau of Labor Statistics em 2018, apontou que em média, um funcionário fica na organização por 4 anos, mas o tempo ideal seria bem menor: 2 anos, de acordo com a recrutadora Dele Lowman. 

 

Tudo tem seu tempo: Kairós

Há algo mais poderoso do que quando o tempo para uma determinada ideia chega? Um produto que apressadamente chega ao mercado rapidamente expira. Uma organização precisa sentir quando é chegado o tempo. Esse tempo é sazonal, tem pausas para descomprimir após picos intensos. Há tempo para sair do radar, para reduzir o ritmo se necessário, mas acelerar e correr com as coisas quando a tarefa for urgente. Nada linear…

 

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