Propósito e Esperança

Propósito e Esperança

Claudia Miranda Gonçalves

10 de setembro de 2019 | 10h00

O compromisso assinado por cerca de 200 CEOs das maiores empresas americanas durante o BRT (Our Commitment – Business Roundtable),  me enche de esperança por três razões importantes:

1- Celebra o fim da era da hegemonia do acionista;
2- Aceita a interdependência dos diversos participantes do sistema como fator de sucesso;
3- Torna as empresas mais inclusivas e abertas ao diálogo;

Gostaria, hoje, de comentar cada um dos itens acima para que esta conversa se prolongue e gere resultados reais.

1. Sobre o fim da hegemonia do acionista

Mais do que visão sistêmica, as assinaturas no referido documento pressupõem uma nova governança e uma nova interlocução por parte das empresas.

Quando o lucro (que é sempre referência de curto prazo) já não pode sacrificar os resultados de longo prazo, novas linhas e colunas deverão ser acrescidas nas planilhas de Excel.

Uma delas é a coluna de Impacto e Benefícios para os diversos participantes do sistema.

Estes benefícios precisam ser imaginados e quantificados.

Outra coluna a ser incluída é a de Ética nas relações e, por fim, a coluna da sustentabilidade.

A partir de agora, tudo isso precisa ser priorizado juntamente com funcionalidade, custo e legalidade.

Novos indicadores-chave de performance serão criados para medir estas dimensões que, até aqui, eram chamadas de “um plus“. Ou seja, daqui em diante, o que era adicional passa a ser essencial.

Então, o que as empresas deverão medir daqui em diante? Uma coisa é certa: se continuarem a focar no lucro como principal medida de saúde ou progresso da empresa, certamente não conseguirão cumprir o compromisso firmado pelos 200 CEOs.

Uma boa pergunta é: se as empresas, a partir de agora, irão focar em todos participantes do sistema: acionistas, fornecedores, sociedade, consumidores, colaboradores (ainda não mencionaram o planeta…) o que, no lugar do lucro, será o novo indicador de sucesso das empresas

Como medir a prosperidade

Como medir evolução e desenvolvimento em lugar de crescimento?

2. Sobre a interdependência e o sucesso:

As perguntas acima (ainda sem respostas práticas, claras e precisas) só farão sentido em um cenário de conversas inclusivas, daquelas em que as diversas vozes, em especial as minoritárias, são ouvidas e de alguma forma fazem parte da construção de soluções mais perenes e mais inclusivas.

Ou seja, a diversidade de pontos de vista permite que se apreciem as diversas forças que atuam no sistema, captura as direções e sentidos dessas forças e promove um melhor equilíbrio.

Já vimos, na nossa história recente, que qualquer valor ou força levado ao seu máximo se deteriora. 

Por exemplo, se a empresa valoriza demais o lucro e exagera na intensidade, provavelmente, acabará por negligenciar ou por descuidar do meio ambiente, da manutenção ou atualização de tecnologias ou mesmo do desenvolvimento das pessoas.

Pode até deixar de olhar para sua própria estrutura física. Ou seja, é importante que a empresa tenha um olhar de autocuidado ou cuidado com seu ambiente e pessoas para contrabalancear. 

Só assim a empresa não corre o risco de, mesmo que não intencionalmente, causar acidentes e adoecer seus colaboradores.

Concluindo, a diversidade traz o equilíbrio (dinâmico) tão essencial ao sistema. 

Parece dar mais trabalho, mas na verdade é o oposto. 

Uma dica: precisamos sair do imediatismo!

 

 

Nova Realidade

Figura ilustrativa do conceito de interdependência de Dr. W. Edwards Deming Fonte: www.intelligentmanagement.org

 

3.Sobre estar aberto ao diálogo:

As empresas têm o seu papel social! Elas foram criadas para ajudar as comunidades humanas de grandes proporções a sobreviverem.

Sem as empresas, não teríamos cidades grandes, progresso de tecnologias, as invenções a serviço da vida.

Para mim esta declaração do BRT é um retorno à razão de ser original das empresas: viabilizar nossa vida em grandes comunidades.

Cabe a nós, como sociedade, também convidar as empresas ao diálogo. Este convite não pode acontecer no modelo nós versus elas; mas deve ser algo do tipo: nós graças a elas e elas por nós. Espero que seja possível.

Então, por essas três razões me vejo cheia de esperança no futuro das empresas que parecem se tornar mais humanizadas e mais cientes de seu papel social.

Me vejo com esperança, porque o pensamento sistêmico e modelos de governança mais inclusivos estão em via de se tornarem realidade.

E já não me sinto tão sozinha repetindo o mantra de-que-problemas-sistêmicos-precisam-de-soluções-sistêmicas.

Convido a refletirmos sobre um propósito evolutivo!

 

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