Reinventar-se, Jamais!

Claudia Miranda Gonçalves

22 Janeiro 2019 | 10h00

Sim, você leu certo: reinventar-se, jamais. Que fique claro: reinventamos produtos, serviços; nunca pessoas. Então, vamos acabar com essa bobagem de dizer que nos reinventamos à medida que evoluímos. Isso não existe. A evolução é algo contínuo, é um gerúndio: vamos nos desenvolvendo, crescendo e, consequentemente, evoluindo.  É processo. Ninguém interrompe uma evolução, ou uma transformação, para se reinventar.

 

E tem mais, se alguém precisa se reinventar é porque não está dando certo. E isso, caro “inventor”, não existe. Além do mais, é uma péssima imagem para se fazer de você mesmo, afinal pode parecer que você está descartando suas experiências e partes de si mesm@ ou de sua vida. Isso nunca é bom, pois nessa exclusão se vai a experiência inteira: o que foi ruim, mas o que foi bom também; a parte negativa, mas junto o aprendizado. Por outro lado, ao aprender e evoluir, você honra e dá valor a tudo o que já viveu e a tudo o que você já foi. Isso é ir além e faz você ser, cada vez mais, o melhor de você mesmo. É isso que faz a diferença.

 

Então, mudar de emprego, de casa ou de parceiro não é reinventar-se. Jogar tudo para o alto e começar do zero não é reinvenção. Decidir ter um filho, mudar de país, largar um curso na faculdade; nada disso é reinventar. Tudo isso é, apenas, interagir com o mundo, com o seu tempo, com o seu momento de vida. É encarar os desafios, é ir atrás do seu propósito de vida. Estamos sempre em um processo de adaptação, em uma interação sistêmica com o mundo que, como sabemos, também não para.

 

Assim, sugiro pensar um pouco sobre as palavras, seus significados e origens. Inventar é criar algo que nunca existiu. Não é como descobrir, revelar, elaborar. É partir do zero e criar algo novo. Está vendo? Nada mais inadequado para falar sobre o ser humano que inventar, não acha? Se não podemos nem nos inventar, imagina, então, nos reinventarmos.

 

No fim das contas, o que eu quero mostrar é que reinventar é um termo irônico, debochado até, e que não deve ser usado para se referir a ninguém, muito menos a uma trajetória de vida. Então, da próxima vez que der vontade de dizer que as transformações e evoluções da sua vida são reinvenções, invente uma nova palavra para falar da vida. A minha, por exemplo, é transformação. Uso essa palavra por acreditar que ao explorar as oportunidades que a vida me apresenta, vou sendo modificada. A cada decisão que tomo, risco que corro (ou que decido não correr) vou inscrevendo novidades em quem eu sou. Repito:  viver não é uma invenção, é um aprendizado, uma busca, um caminho percorrido de forma única e instigante. E, mais, a vida merece toda a nossa criatividade por ser uma busca que começa todo dia, a qualquer hora do dia e sempre que a gente se abre para essa possibilidade. Bom dia bom para você e viva a vida!