SABÁTICO: LOUCURA OU CORAGEM?

SABÁTICO: LOUCURA OU CORAGEM?

Claudia Miranda Gonçalves

20 de novembro de 2018 | 10h00

Este texto foi escrito pela minha cliente e amiga Nadège Hacq, a quem tive o prazer de acompanhar por um período de sua carreira e na decisão de fazer este sabático. A experiência dela foi tão incrível e transformadora que lhe lancei o desafio de escrever sobre o sabático, pois acredito que mais pessoas precisam de coragem louca ou de loucura corajosa em suas vidas e carreiras!


Por Nadège Hacq

Mini Bio:
Francesa de 34 anos, Nadège estudou Negócios Internacionais e Marketing na França. O gosto de descobrir outras culturas sempre existiu e ela iniciou a viajar durante os estudos, primeiro para Espanha e depois para Suécia. Logo após de se formar, ela começou sua carreira na Danone França como gerente comercial e seguiu trabalhando no grupo Danone por 8 anos. Nesse tempo ela teve diferentes papeis gerenciando desenvolvimento de negócios nos Estados Unidos e no Brasil. Em 2015, passou a ser responsável do desenvolvimento da marca MAKE UP FOR EVER, do grupo LVMH, no Brasil.
Em 2017, decidiu sair do piloto automático fazendo um sabático de um ano para descobrir novas maneiras de enxergar o mundo.

Minha transformação, uma questão de postura.

Faz uns meses que estou pensando em como poderia compartilhar a minha transformação. Essa mudança iniciei com pequenos passos, timidamente, mas que agora vejo de forma muito concreta na minha vida.
A experiência é muito próxima a esse sentimento profundo de quando se é criança e faz uma descoberta simples, mas fundamental, como dar seu primeiro passo…um efeito UAU que invade seu corpo inteiro e transborda uma felicidade imensa.

 

Tenho 34 anos, sou francesa e depois de ter trabalhado como executiva em multinacionais na França, Estados Unidos e Brasil, decidi dar uma pausa e viajar. Eu, minha mochila e meu namorado. E só.  Não deixamos nada para trás. Vendemos carro, apartamento e todas as coisas materiais para viver e descobrir outros mundos.

 

A decisão de parar tudo parecia estranha, pois adorei tudo o que eu fiz nos meus 10 anos de carreira; desafios interessantes, chefes top, clientes, times e colegas incríveis. Fazia parte de um ecossistema de grande qualidade e tenho só a agradecer. Claramente eu sou privilegiada pelo fato de ter recebido uma boa educação, muito amor e confiança, e essa base forte me ajudou a tomar riscos e sair da minha zona de conforto.

Mas meu sucesso tinha um gosto de piloto automático. Tinha esse sentimento íntimo de não saber mais pensar fora da caixa, de não usar plenamente meu potencial e também de não fazer algo que tinha um sentido maior do que trazer dinheiro. Estava presa em minha correria para ser sempre mais eficiente, mais produtiva, fazer mais em menos tempo. Acredito que essa procura estava justamente me tornando menos criativa, com pouca margem para pensar da minha forma própria. Estava mais seguindo o modelo que a sociedade e minha cultura queriam que eu seguisse e me deixando finalmente menos humana, menos eu.

Provavelmente, meus amigos e colegas brasileiros, sem sabe-lo, me ajudaram a tomar essa decisão. Essa abertura ao outro, sabendo aproveitar dos momentos plenamente e de maneira tão simples, me mostravam uma maneira de estar e ser que eu não conseguia lograr e sentir.

 

Durante 12 meses, viajei por 10 países diferentes. Descobri lugares extraordinários e pessoas inspiradoras que me ajudaram a ampliar minha visão do mundo. Mas diria que o que mais me transformou foi a postura que adotei durante a viagem. Quando tomei a decisão de parar para experimentar uma vida diferente, fiz um acordo comigo mesma de mudar minha postura para me abrir e aprender com tudo que iria acontecer. Algo do tipo “Tudo que vai acontecer será aprendizagem e quero abraçar o desafio por inteiro, as coisas boas e as ruins”. Com isso, fiquei muito mais aberta a tudo e sobretudo muito mais gentil comigo mesma.

 

Com essa atitude, tomei a coragem de olhar para dentro de mim, sem me julgar e com benevolência, mas também com franqueza e honestidade. Acredito que foi daqui que veio a real transformação. Aceitando de abrir novos olhos sinceros sobre mim mesma. Assim não tem como escapar, tive que olhar para minhas próprias mentiras, meu ego, e meus medos e começar a atuar de forma coerente para mim mesma para me tornar minha melhor versão.

 

Acredito que para transformar nossas sociedades e sair de nossas crises, temos que primeiro operar uma transformação interna, nos conectando com a nossa essência. A cultura do consumo sem fim e das aparências está mostrando seus limites, tanto para nos trazer felicidade como para proteger nosso planeta a longo prazo. Minha pausa me permitiu sentir isso de maneira muito forte.

 

Uma vez que aceitei mudar a minha postura e olhar dentro de mim sem me julgar, realizei que eu fazia parte do problema, e que tinha que mudar minhas ações se quisesse trazer resultados diferentes.

 

Agora, de volta na Europa, em vês de procurar um trabalho parecido no qual já trabalhava, decidi ir atrás de um novo projeto para concretizar essa transformação. Meu objetivo é juntar minhas competências no desenvolvimento de negócios, com minha vontade de transformar o funcionamento das empresas. Descobri o empreendedorismo social e isso despertou uma grande energia em mim para tomar ação. Acredito muito que organizações sociais e companhias tem muito a ganhar em trabalhar juntos e quero ajudar a desenvolver essas parcerias.

 

O exercício não é fácil. Se abrir ao desconhecido não é simples e não é o caminho que nossas sociedades modernas nos puxam a fazer. Às vezes, parece mais fácil seguir igual a todos, mesmo que nossa voz interna, tentando salvar a nossa própria humanidade, faça um barulho enorme.

 

Mas a verdade, é que quando começa a transformação, há um sentimento de bem-estar e de alegria que enche o corpo e a mente, dando uma grande energia e ainda mais força para continuar. São só os primeiros passos e sei que tenho um caminho longo pela frente, com vários obstáculos. Mas vale cada dificuldade, pois a felicidade de se sentir mais centrada e em acordo com minha razão de ser não se explica com palavras.

 

Pela primeira vez estou entendendo o que o Mahatma Gandhi quis realmente dizer quando escreveu “Seja a mudança que você quer ver no mundo. “

 

Nadège Hacq

 

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