saber se perder

saber se perder

Claudia Miranda Gonçalves

27 de julho de 2022 | 14h26

Você sabe ler, escrever, e mais um bocado de coisas, mas à moda que talvez o chapeleiro maluco ou o gato perguntaria a Alice, acaso você sabe se perder?
Eu já adianto a resposta: creio que não! Minha intuição vem de minha própria dificuldade. Ficar perdida em algumas situações gera estresse, ansiedade, sensação de estar devendo, incompetência e por aí vai. Quantas vezes em lugar de explorar, aventurar, testar eu ou você nos paralisamos? Mais que paralisia, nos cobramos de já saber onde se quer ou precisa chegar. Se eu sei, claramente não estou perdida. Então, não! Não acredito que saibamos como estar perdidos seja individualmente, seja coletivamente.

Mas, por que importa saber como estar perdido? Estar perdido significa se abrir para um presente desconhecido ou com chances de ser aprendido, com o qual se pode interagir e sobre o qual se pode responder e ver o que acontece – inventar. Também é possível fazer arte, ampliar a cultura e brincar. Essa é a base de nosso desenvolvimento individual e coletivo. Mas hoje queremos dar um google e resolver tudo/ saber tudo.

Nas empresas a dança é a mesma. A fragmentação do trabalho gera três lacunas:


Lacuna social:
top-down

Lacuna funcional:
gerenciar/controlar
regras/execução
poder

Lacuna de tempo:
divisão pensar/fazer
gestão/ estratégia/previsão
planejamento

Fonte: Niels Pflaeging


Essa fragmentação funciona super bem para as coisas inanimadas, sem vida. Mas, em se tratando de sistemas vivos e complexos, ou seja, quando falamos das pessoas, da sociedade, governo, mercados, as coisas ficam complexas.

Na complexidade, agir sobre partes individuais não melhora o todo. E até prejudica o todo. Partes trabalhando separadas no sistema não melhora o funcionamento do todo: porque em um sistema, não são as partes que importam, mas sim como elas se conectam. O que realmente melhora o sistema como um todo não é trabalhar sobre as partes em si, mas sim a interação entre essas partes. Você pode chamar essa atitude de “liderança”. Os sistemas não são melhorados através da melhoria das partes mas agindo sobre as interações entre as partes. Por isso precisamos aprender a estar perdidos, pois é nossa chance diante de criar respostas para o todo.

Nossa melhor chance de sabermos como fazer isso bem é nos conectando. É a partir de nossas trocas – seja conversas, arte, gestos, projetos, o que for, colocando o sistema em primeiro plano, que acharemos trilhas para o futuro. E assim saberemos como andar por trilhas que mudam de tempos em tempos.

Nessa foto de Sebastião Salgado, vemos o arquipélago em constante transformação formado por cerca de 350 a 400 ilhas no Rio Negro. No comentário da foto na exposição Amazônia, dizia-se que só os experientes ousavam por ali transitar (sem se perder?) ou por saberem se perder? E fica uma imagem do que vivemos mais e mais: a mudança como constante e estar à vontade em  estar perdido, ter mestria em orientar-se por labirintos dinâmicos. Reunir e escutar e conversar e não ter (tanta) pressa. Aprender os tempos das coisas.

E então, voltando às lacunas:

  • quais lacunas precisam ser vistas em sua vida ou empresa?
  • o que pode se ver a partir das lacunas?
  • que conversas podem preencher as lacunas?
  • o que se tornará possível após cicatrizarmos as lacunas?

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.