O sentido perdendo o sentido

O sentido perdendo o sentido

Claudia Miranda Gonçalves

02 de dezembro de 2021 | 16h59

 

*Texto inspirado em um diálogo entre Nora Bateson e Dave Snowden em 02/12/2021

A explicação que não satisfaz. O relógio que faz o registro que não é o do tempo sentido. A vida abandona o relógio de pulso e se manifesta de forma ambígua, borrada. É assim que muitas vezes nos sentimos quando pensamos sobre sistemas vivos. A vida é feita de relacionamentos, pontos de contato que mudam a todo momento. Ainda assim, ao pensarmos sobre os sistemas vivos, buscamos a remoção da incerteza, o que trivializa o pensamento sistêmico.

Talvez o segredo não esteja em pensar sobre, mas como sistema vivo. Isso implica em reconhecer que as relações são muitas vezes invisíveis aos olhos, que muitas vezes não temos exata certeza de onde veio a mudança, pois o processo abdutivo impera.

O processo abdutivo, descrito por Charles Sanders Peirce, que tanto Dave quanto Nora aplicam e expandem em seus trabalhos e avanços teóricos, mostra que os diferentes contextos informam uns aos outros. Por exemplo, quando me relaciono com minha sócia, a minha bagagem anterior com parcerias, negócios, histórias contadas por amigos, e muito mais, se conectam em nós, formando uma rede transcontextual em que acontece a nossa interação.

O processo abdutivo é a capacidade perceptiva de perceber a transcontextualidade; de fazer conexões e hipóteses. As nossas relações habituadas – padrões – são resultados do processo abdutivo que ocorre de maneira insidiosa. Mas, como resolver o problema da abdução?

Precisamos desenvolver nossa habilidade de seguir múltiplas hipóteses: suspender a ansiedade de solucionar o problema para se enveredar nas muitas narrativas, criar novos nós e conexões – que em si são uma intimidade incrível.

Também precisamos, além de desacelerar, sustentar a névoa, a imagem borrada, imprecisa, pois se tornamos as coisas visíveis rápido demais, elas serão destruídas. É preciso dar pequenos passos, permitir pequenos achados que são os nós e laços que sustentam a informação multicontextual.

Na prática?

  1. confunda-se um pouco que está tudo bem
  2. coma pelas beiradas, pois é assim mesmo que lidamos com situações muito “quentes”
  3. escute sinceramente e com todos sentidos
  4. não saiba tudo

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