Ser viajante nas nossas relações

Ser viajante nas nossas relações

Claudia Miranda Gonçalves

21 de junho de 2022 | 14h56

Por Andréa Nery

Descobri que meu gosto por viajar está muito ligado ao meu prazer de dialogar, e trabalhar com perguntas, escutando genuinamente o que está vivo.

Descobri que as qualidades para uma boa viagem são as qualidades das boas relações que desenvolvemos através de perguntas poderosas e escuta ativa.

Viajar para mim é estar sempre desperta para o novo, ter um olhar curioso para o que surge, um encantamento pelo que ainda não sei e uma abertura para me deixar surpreender, me sinto livre neste lugar novo, sem medo de errar, porque cada movimento sempre traz um aspecto diferente que ainda não conheço completamente.

Viajar, mesmo que seja para lugares que já conheço, me coloca em um estado de atenção, presente para capturar o que eles têm para me oferecer, me preparo para admirar.

Toda viagem reserva surpresas, programamos roteiros, mas os imprevistos, as situações adversas fazem parte do processo, e as vezes são a “cereja do bolo”! E, desejar que eles não ocorram é o mesmo que não se abrir para novas descobertas: uma paisagem inesperada, uma troca de experiência, uma mistura de sabores… enfim, é perder a oportunidade de viver algo especial, e poder contar uma história única que transforma.

É nesta condição de viajante que surgem minhas melhores perguntas e que minha escuta ganha uma qualidade diferente proporcionando um diálogo e uma troca potentes.

A pergunta que nasce do desejo genuíno de saber mais, vem junto com uma coragem de não ter certezas do que vou encontrar e me deixar relacionar com o que chega.

E a escuta, é assim, presente, chega e preenche os espaços transformando e se deixando estar para dar sentido ao que está surgindo. Não gera respostas rápidas ou soluções prontas.

Nas viagens, como nos diálogos, já caí em armadilhas, talvez com a ilusão de que ia aproveitar “mais”, sem me questionar o significado deste “mais”, e o que consegui na verdade foi desconexão.

Pensa só naquele amigo que já fez a viagem e chega preparando o roteiro: “Se eu fosse você…”! É claro que algumas dicas são interessantes, mas para viver a experiência precisamos entender o que faz sentido para nós, o que gostamos, o que precisamos, ou passaremos a viagem seguindo passos de outros. Como em um diálogo em que queremos ser ouvidos na nossa singularidade e nos deparamos com alguém que só pensa em nos dizer o que faria no nosso lugar.

Ou, quando não visitamos um lugar porque achamos que já vimos outro parecido antes, categorizamos na mesma “caixinha”, tirando a possibilidade de apreciar as particularidades e aprender. É como fingir que está escutando… antes mesmo do outro terminar a frase já sabemos o que vai dizer e qual a melhor solução.

E o Google, ah… como é bom encontrar todas as respostas e pesquisar mais, e mais. Só que perdemos a oportunidade de descobrir nossos lugares e viver nossa própria experiência. E como é ruim falar com alguém que já tem resposta e sabe tudo, que sentimentos estranhos ficam nesta relação.

Trazer a qualidade do viajante para os diálogos ajuda a trabalhar muitas questões que vivemos individual e coletivamente. Vários emaranhados surgem de perguntas não feitas, da falta de escuta e suposições sobre caminhos conhecidos e que acreditamos serem únicos.

Nos falta a coragem de viajante para nos deixar surpreender e nos transformar em nossos diálogos.

Esquecemos como viajar, esquecemos como nos relacionar, seguimos por território “conhecido”, sem curiosidade, caindo em armadilhas que não ampliam nossa visão e não nos desafiam a ser melhores.

Viajar na nossa relação com o outro pode trazer de volta a troca, transformar grupos, equipes, famílias, mudar nosso estado interno. Nossas relações serão tão potentes quanto nos permitirmos dialogar e nos transformar.

Como você pode ser um viajante nas suas relações?

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