Sobre a simplicidade no mundo complexo

Sobre a simplicidade no mundo complexo

Claudia Miranda Gonçalves

18 de fevereiro de 2020 | 10h00

Por Andréa Nery

Domingo de manhã, e eu em uma sala de aula de um hotel, sete dias longe de casa… lá fora, um sol aparecendo entre nuvens e um cheiro de mato.

Estar ali era uma escolha, uma visão importante para os próximos passos em minha carreira, mas a impaciência era o sentimento mais aflorado, e notava que minhas expectativas não estavam sendo atendidas.

Só aos 15 minutos do curso, escutei com interesse o convite para sair e realizar uma caminhada de observação. Não qualquer observação, mas uma direcionada: “Julgar a natureza, e a partir do que se vê, ampliar o olhar para observar o entorno.”

Fácil! Respondi rapidamente à minha impaciência e sai. O local privilegiado, rodeado por árvores e animais, eu não precisaria ir longe para “cumprir” esta atividade.

Logo comecei: “estas flores estão lindas; as folhas do arbusto estão secas; a terra neste local tem muita areia; o tronco seria mais bonito não fossem as trepadeiras; que abelhas pequenas!” …

Uau! Como é fácil e rápido julgar.

O que não esperava era minha dificuldade em conectar comigo mesma, em acalmar minha mente para mudar as lentes de uso no dia a dia.

Parei diante de um córrego para observar o entorno, e fui lentamente transformando as perspectivas iniciais, mudando minhas lentes, ampliando minha visão. O som do bambuzal ajudou a modificar o cenário, nunca havia escutado este som… curioso!

Na natureza, as situações são adversas e a sobrevivência e expansão podem ocorrer de formas diferentes, uma mesma espécie cresce à sombra de uma árvore com folhas menores e mais pálidas, enquanto ao sol, as folhas ficam robustas e verdes; à margem do córrego o volume de água é baixo, observo que existem interrupções ao fluxo, mas é isso que abre espaço para um lindo arbusto…

A complexa natureza convive em harmonia, da melhor forma possível, para as condições que se apresentam!

Neste momento, entendi que esta lente mais ampla pode atuar na minha vida…

Minha impaciência na sala era fruto de contextos diferentes! Não só por ser Domingo, ou por estar fora de casa, mas talvez, porque quando criança gostasse de ficar ao ar livre quando não me conectava; ou ainda, porque me lembrei de reuniões em família; ou quem sabe porque este local me traz uma percepção sutil de dias difíceis; possibilidades …

Ficou mais fácil aceitar meu sentimento ao usar as lentes que ampliam as perspectivas e me conectam com meus contextos!

Como seria aceitar o sentimento do outro com estas lentes?

O alarme do relógio avisou que deveria retornar à sala, e feliz com meu aprendizado, iniciei a volta.

Mas tropecei e me deparei com uma planta solitária, pequena, mas muito verde, exatamente como outras de sua espécie, em uma terra aparentemente infértil…

Como teriam sido criadas as condições para aquele florescer?

A semente trazida, retirou do solo os nutrientes possíveis, e buscou dentro dela a força necessária para crescer, e atuou para ser o melhor que podia.

Nas mais diversas condições, respondeu à sua essência: a vida.

Fiquei perplexa com o meu despertar…

Na complexidade de qualquer sistema vivo, a simplicidade está em se manter no que é essencial.

E na essência, somos vida, e diante de qualquer condição ou contexto propostos, vida é o que temos que viver!

Esta lente transforma tudo, e ao olharmos para o outro, e para nós mesmos, podemos ter respeito e compaixão, afinal a cada um cabe viver o seu melhor no seu contexto…

Ao notar que julgamos, precisamos trocar as lentes, avaliar contextos, ampliar a visão!

Ansiosa para voltar, corri, não queria me atrasar, há muito que aprender!