trabalho X tarefa

trabalho X tarefa

Claudia Miranda Gonçalves

27 de setembro de 2021 | 11h52

Trabalhar é mais que realizar tarefas

“Estou me sentindo empacad@”

“Tenho muito desconforto no e com o trabalho”

“Não me sinto conectad@ com o que faço”

 

Essas falas + burnout + medos + ‘eu-tenho-que-dar-conta’ são sintomas que aparecem nos indivíduos e vêm sendo tratados e vistos dessa forma. Será mesmo? Quando essas falas, sentimentos e sintomas aparecem de maneira tão difundida, paramos para questionar. O mais provável é ser algo sistêmico.

Reconhecer esse momento significa se envolver realmente com o lado sombrio do trabalho, e das interações interpessoais e dos processos de humanização. Nos deparamos não só com compaixão e empatia, mas também com  ódio, raiva e ressentimento. Os processos de desenvolvimento são mais lentos do que gostaríamos e mais complicados; damos passos à frente e para trás, e muitas vezes, esses processos são dolorosos.  

Antes de nos ocuparmos com a promessa de que a eficiência resolverá as coisas, convido a refletir sobre a base em que essa eficiência pode ser construída.  Em termos mais pessoais, trata-se de convivência, de saber que você gosta de alguns e não gosta de outros. Trata-se de reconhecer que você depende das pessoas – uma percepção terrível na nossa cultura individualista. Queremos ser super-humanos, autossuficientes e independentes, mas esse anseio pode dificultar os relacionamentos com as pessoas à sua volta. A crise que enfrentamos, particularmente no trabalho, nos faz olhar para o trauma coletivo. É desse coletivo que começa a brotar um processo de humanização vital, pois você nunca sabe quem é a pessoa que vai te salvar. Aprendemos a valorizar as pessoas enquanto seres humanos, pois aprendemos que todos têm a capacidade de se importar e cuidar uns dos outros. A antropóloga Margaret Mead dizia que um indicador de civilização era encontrar algum osso cicatrizado, pois apenas numa sociedade seria possível cuidar de alguém para seu restabelecimento.

A consciência dessa humanidade tão necessária abre espaço para criarmos as condições para que as pessoas se relacionem de forma construtiva umas com as outras.  A solução virá de tecnologias muito antigas: conectar-se com as pessoas, formar e manter relacionamentos e escutar,  escutar,  escutar, antes de já se antecipar para achar soluções (rasas).  

A tarefa não acaba por aí para os que buscam continuar se desenvolvendo e crescendo (como pessoa). Talvez tenha que começar a se familiarizar em como o ser humano funciona tanto individual, quanto coletivamente. Ler mais sobre saúde mental, conversar com profissionais da área, coisas que provavelmente não faziam parte de seu repertório. E, mais que tudo, é preciso se comprometer: o que pode significar ter mais conversas do que você gostaria, delegar mais do que gostaria, abrir mais mão do controle, ter a humildade de que talvez você não esteja entendendo a situação completamente. 

Mais que tudo, não desista! Uma das coisas mais difíceis quando lidamos com saúde mental é que a pessoa com quem você mais precisa conversar para entender o que está acontecendo é aquela que provavelmente vai se abrir muito pouco. Pessoas em situação de estresse e problemas são as que têm mais dificuldade em mostrar sua vulnerabilidade.  Ou ainda, essas pessoas podem estar bravas ou ressentidas com você. Escute e saiba que é e não é com você.

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