Trilha financeira das mulheres e protagonismo

ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Trilha financeira das mulheres e protagonismo

Claudia Miranda Gonçalves

28 de julho de 2020 | 10h00

O que as mudanças sutis, mas constantes, na dinâmica financeira nas famílias pode revelar sobre pontos cegos , anacronias e potencial?

Adoro ver os gráficos do Visual Capitalist, pois trazem dados e conexões através de imagens. Os dados muito bem curados e as imagens super criativas. Esta semana deparei-me com um estudo sobre o ganho das mulheres

https://advisor.visualcapitalist.com/womens-earning-power/ e resolvi fazer minha reflexão essa semana sobre o que isso implica para as famílias, para as dinâmicas entre homem e mulher. E talvez uma digressão sobre a materialização da equidade de gêneros.

Dado: as mulheres contribuem com US$5 trilhões da riqueza global anualmente, ou seja, esse dinheiro é aquele a mais, que se transforma em potencial de investimento.  Nos Estados Unidos, as mulheres são responsáveis por US$35 trilhões dos assets. Em 2019, as mulheres controlaram 33%  da riqueza global, número ainda em ascensão.  Se considerarmos que as mulheres, muitas vezes, ainda ganham salários menores que os dos homens para as mesmas funções,  os 33% parecem mais com 50%.

No desenvolvimento do infográfico sobre mulheres, o portal The Visual Capitalist analisa o destino do dinheiro gerado por estas mulheres. Em todas faixas etárias consideradas – entre 25 e 39; entre 40 e  59 ou acima de 60 – o objetivo prioritário é estilo de vida confortável, recebendo sistematicamente mais de 50% do investimento/ ou intenção de investimento.

Algumas reflexões que me ocorreram extrapolando os dados (ou seja, minha opinião):

1 –  Como aproveitar esse viés de cuidar de todos para direcionar como o dinheiro é  empregado e aplicado?  Com que cara ficaria uma economia com a energia mais feminina?  Bem provável que a energia e estética do feminino tragam uma nova ética em seu esteio: a inclusão e o bem estar ao lado do lucro e competitividade.

2- Ainda que o estilo de vida confortável consuma mais de 50% do poder de investimento/ gasto das mulheres, como as mulheres podem ter cada vez mais voz sobre o destino do dinheiro? Quanto vai para aposentadoria? Quanto para assegurar o futuro?

3- A longevidade trouxe uma mudança de papéis e expectativas importante. Por séculos  nossa expectativa de vida foi de 50 a 65 anos de vida – para os homens girava em torno do trabalho e para mulheres o cuidado na criação dos filhos.  Agora que ambos sexos têm expectativa de vida de + 80 anos, será que faz sentido a organização econômica que ainda temos, em que o trabalho e criação da família competem pelo mesmo intervalo de tempo?

Alongo-me um pouco mais nessa terceira reflexão. Um psicóloga de Stanford, Laura Carstensen, trouxe uma proposta revolucionária que poderia mudar muito nosso estilo de vida e torná-lo mais aderente a nossas novas e ampliadas possibilidades biológicas da longevidade. Ela propõe que homens e mulheres não comecem a trabalhar antes dos 40. Assim ambos teriam tempo para dedicar uma parte de sua idade jovem adulta a focar na primeira infância dos filhos. Com uma expectativa de vida girando em torno de 80 anos, isso ainda nos daria 40 anos produtivos. Contaríamos ainda com todo amadurecimento que a criação dos filhos pode nos trazer em termos de leitura do ambiente e pessoas, pensamento complexo, negociação, para citar algumas habilidades de vida que são muito bem vindas no âmbito profissional.

Isso nos tornaria mais humanizados no trabalho? Bem possível. Seria engraçado também sermos referência ou imagem profissional para os netos em lugar dos filhos, pois nossos netos conviveriam amis com avós trabalhadores e pais mais presentes.

Mesmo no modelo tradicional de carreira e aposentadoria aos 65 anos,  já estamos no tempo de repensarmos nossas carreiras como longas maratonas, em que é mais inteligente alternarmos trechos em que atendemos a uma diversidade de necessidades e momentos da vida – criar filhos, estudar, mudar de profissão, ver o mundo – e que isso seja o nosso novo padrão de estilo de vida confortável.

 

 

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