Um olhar diferente para o Ser Humano nas Organizações

Um olhar diferente para o Ser Humano nas Organizações

Claudia Miranda Gonçalves

31 de maio de 2022 | 10h30

Hoje é dia de convidada!

 

Psicóloga, pós- graduada em Arte Terapia, certificação internacional de Coach e, atualmente, Executiva de Recursos Humanos na Weleda. Eterna apaixonada pelo ser humano e suas histórias e entusiasta e aprendiz de relações de trabalho mais humanizadas.  Já atuei na área da saúde e há mais de 15 anos tenho focado no desenvolvimento humano no contexto organizacional, buscando ser um agente de transformação.

 

 

 

Um olhar diferente para o Ser Humano nas Organizações

Foi o desafio de construir uma empresa diferente e humanizada que me fez aceitar o convite da Weleda, há quase 6 anos. O objetivo inicial era estruturar a área de Recursos Humanos que, na época, tinha apenas 2 colaboradores, e apenas um departamento pessoal. Depois de estruturada a área, a missão era transformar o RH tradicional em Relações Humanas, nova identidade que assumimos em 2021, e que exigia uma mudança cultural e de gestão, com olhar para desenvolvimento e individualidade de cada um.

Meu primeiro contato com a Antroposofia deu-se quando eu trabalhava numa instituição financeira há mais de 10 anos, num grupo de estudos sobre os setênios. Eu estava com 35 anos e tive um dos maiores insights da minha vida. A “Crise da Autenticidade e a relação entre Ser X Ter, presentes nesse setênio, me impulsionaram a pedir demissão na organização na qual atuava. Em 2016, fiz uma formação de Coach no EcoSocial, com base antroposófica. E esse olhar para o ser humano integral, nos âmbitos de corpo, alma e espírito, como adulto e responsável pelas suas escolhas, ressoou em tudo o que eu acreditava.

Quando aceitei o convite não se falava tanto sobre empresas humanizadas, mas eu já tinha a certeza de que o RH tinha que ter outro posicionamento e um olhar diferente para o ser humano nas organizações.

A Weleda era o lugar certo para esse olhar, já que tem como origem a Antroposofia.

Uma farmacêutica suíça, fundada em 1921, que produz cosméticos e medicamentos antroposóficos feitos com ingredientes 100% naturais e cultivados de forma sustentável.  Esse cuidado vem da antroposofia, filosofia que é base da nossa existência e nos inspira até hoje.

A Antroposofia foi criada no início do século XX por Rudolf Steiner, também um dos fundadores da Weleda, e estuda o ser humano e as suas relações com a natureza e com o universo, colocando esse conhecimento em prática. A intenção é que o ser humano desenvolva a autoconsciência e ao evoluir como indivíduo se coloque a serviço do desenvolvimento da humanidade. Foi a possibilidade de atuar na construção de uma cultura organizacional, com base nesse olhar, que me chamou para ocupar a liderança de RH na Weleda Brasil.  Algumas das vertentes práticas da antroposofia são a pedagogia Waldorf, a agricultura biodinâmica, a medicina e farmácia antroposóficas.  Em 2018 a Weleda construiu o Modelo Integral, uma forma de demonstrar o desenvolvimento dos colaboradores e da organização, com base nas relações do indivíduo com ele mesmo (autoconhecimento), das equipes (reflexões de como se relacionam e quais os principais desafios), e como tudo isso se conecta com as relações na organização e no mundo. O objetivo não é moldar o perfil adequado, mas potencializar o desenvolvimento de cada indivíduo – com os desafios que todos temos – e das suas relações. Este é um jeito novo de olhar: que considera o contexto de mundo e as relações (internas e externas) em prol do desenvolvimento das pessoas e da organização.

Este novo modelo é desafiador e exige quebras de padrões estabelecidos, como a busca pelo perfil adequado, profissionais prontos e com currículos impecáveis, a separação da vida profissional e pessoal (como se fosse possível!). Expectativas geradas, padrões e discursos criados em dinâmicas organizacionais que adoecem, acirram a competitividade entre cada indivíduo e criam ambientes não saudáveis para trabalhar.

E como isso é difícil pois no modelo organizacional tradicional, da qual a maioria das pessoas vêm, ainda aprendemos que “manda quem pode, obedece quem tem juízo” e geralmente quem tem juízo é o “chefe” que deve ter todas as respostas e é   indispensável para que as coisas aconteçam. A cultura do comando e controle foi, e ainda é em muitas organizações, o padrão. Nela, o que é o humano (o sentir) é calado, muitas vezes até visto como fraqueza e não parte da característica do ser humano (pensa, sente e age).

Na perspectiva do Modelo Integral, estamos numa jornada individual e coletiva inspirada pela responsabilidade compartilhada, pela colaboração solidária e pela liderança baseada no propósito. Ainda estamos aprendendo essa nova forma de atuar. Buscar o equilíbrio entre o que é colegiado, com as decisões mais autocráticas que as vezes se fazem necessárias, ainda é um desafio. Mas já ouvimos com certa frequência dos nossos colaboradores que a Weleda é uma empresa “diferente das outras que já trabalhei” e isso, para mim é maravilhoso, pois não é apenas o RH que enxerga a empresa dessa forma, então significa que as práticas já estão acontecendo….

A única certeza que eu tinha, e ainda permanece, é de que não quero fazer mais do mesmo jeito…. e hoje tenho certeza de que não dá mais para ter uma organização sustentável e saudável sem colocar o ser humano (adulto e responsável) e suas relações no centro! E assim continuo firme na construção de uma organização cada vez mais, genuinamente, humanizada!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.