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Argentina, a megera domada?

Luciano Sobral

17 de fevereiro de 2014 | 13h36

Na peça de Shakespeare, Catarina, a megera do título, é “domada” com uma série de privações impostas por seu marido, Petrúquio. Na semana passada, o ministro da economia da Argentina, Axel Kicilof, anunciou uma nova metodologia de cálculo para a inflação no país, marcando uma “mudança qualitativa com relação ao passado” (palavras dele). Ainda é altamente especulativo pensar que a Argentina foi domada pelas privações impostas pelos mercados internacionais. Porém, a medida, em meio a negociações (que precisam de um aval do FMI) de uma dívida de US$ 6,5 bilhões com o Clube de Paris, pode indicar que o país quer levantar uma bandeira branca para tais mercados.

O novo Índice de Preços ao Consumidor Nacional (IPCNu) é baseado em coletas por todo o país, enquanto a medida anterior capturava apenas a inflação da região metropolitana de Buenos Aires. Mais importante que a ampliação da cobertura é deixar para trás uma metodologia que convenientemente excluía grande parte dos preços em alta e que há anos estava desacreditada tanto pela população quanto por economistas mundo afora.

Pelo novo índice, a inflação na Argentina em janeiro foi 3,7% (contra 1,4% pela metodologia anterior e 4,6% pelo IPC Congresso, uma compilação de estimativas de consultorias feita pela bancada de deputados da oposição). Em variação anual, a diferença entre a antiga medida oficial e o IPC Congresso era de quase 20 pontos percentuais. O IPCNu deve ir na direção de reconhecer o tamanho do descontrole dos preços no país, e pressionar por mudanças na condução da política econômica.

Em dezembro do ano passado, o FMI anunciou que havia entrado em um acordo com a Argentina em definir um calendário para a publicação de um novo índice de preços e revisões para as medidas passadas do PIB. O cumprimento dos prazos sinaliza uma reaproximação do país com o fundo. É possível imaginar que a queda acentuada nas reservas internacionais fez com que a Argentina julgasse desejável manter aberta uma linha de emergência, caso a escassez de dólares se aprofunde.

Pelos últimos dados do banco central, as reservas argentinas estão em US$ 28 bilhões (eram US$ 43 bilhões há um ano), equivalendo a pouco mais de quatro meses de importações. A balança comercial teve, no ano passado, uma alta de 23% nas importações de combustível e energia, enquanto as exportações nessa categoria caíram 24% e a receita da venda de commodities para o exterior ficou estagnada. A recente desvalorização do câmbio deve contribuir para um alívio nas contas externas, mas a fragilidade ainda é evidente–uma nova fuga de dólares ou um choque negativo nos preços de commodities pode empurrar o país para uma grave crise. A prudência parece ter falado mais alto do que a ideologia: não contar com um emprestador de última instância pode implicar em falta de moeda estrangeira para compra de produtos essenciais e, como se vê na Venezuela, um ambiente político explosivo.

Após a implosão do regime de câmbio fixo e o calote da dívida, em 2001, a Argentina entrou em uma fase de experimentos econômicos e isolamento. Sem a preocupação do financiamento externo, garantido pela bonança nos preços das exportações, era mais fácil não se preocupar com a repercussão externa das políticas que adotava. As circunstâncias parecem ter provocado um recuo na direção das “boas práticas” econômicas. Resta saber se as mudanças serão sustentadas enquanto se aproximam as eleições presidenciais, marcadas para 2015. O discurso final da Catarina de Shakespeare é irônico o bastante para deixar o leitor com a suspeita de que não se foge por muito tempo de uma natureza mais profunda e complexa.

 

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

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