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As consequências econômicas da senhora Yellen

Luciano Sobral

18 de novembro de 2013 | 14h24

O aspecto mais importante da nomeação de Janet Yellen para a presidência do Fed foi a nomeação em si. Primeiro, por ela ser a primeira mulher a ocupar esse posto, em um campo ainda amplamente comandado por homens. Annie Lowrey, no New York Times, observou que não há nenhuma mulher entre os 23 membros do conselho do Banco Central Europeu ou os 9 do mesmo órgão no Banco da Inglaterra, e apenas uma no equivalente do Japão. Fora do mundo desenvolvido, mulheres presidem os bancos centrais da África do Sul, Malásia e Botsuana, mas não há mais do que 10 no cargo mais importante dos bancos centrais do resto do mundo. Atualmente, não há nenhuma mulher entre os membros do nosso Copom.

Segundo um

Documento

, em 2012 mulheres eram 34% entre os recém-doutores em economia nos Estados Unidos (contra 46% no agregado de todas as áreas). Ainda que essa proporção não pareça muito baixa em absoluto, a mesma medida entre professores parece refletir tanto um gargalo no mercado de trabalho quanto os anos anteriores de participação muito menos expressiva. Nos departamentos de economia americanos, mulheres são 28% entre os professores assistentes, 22% entre professores associados e apenas 12% dos professores titulares.

Na área de atuação de Yellen, a escassez de mulheres parece ainda maior. Ainda que, nos últimos dez anos, três dos oito ganhadores da medalha John Bates Clark (o cobiçado prêmio para economistas americanos com menos de 40 anos, que costuma antecipar em alguns anos os ganhadores do Nobel) sejam mulheres (Susan C. Athey, Esther Duflo e Amy Finkelstein), nenhuma delas é macroeconomista. Nos rankings de publicações (como o RePEc, do Fed de Saint Louis), apenas duas aparecem entre os autores mais citados da área: Carmen Reinhart e Gita Gopinath. Na história, o Banco Mundial teve apenas uma mulher (Anne Krueger, entre 1982 e 1986) economista-chefe; o FMI, nenhuma. Assim, infelizmente, ainda é difícil deixar de ver profissionais como Yellen e Christine Lagarde como exceções em um nicho dominado por cromossomos Y.

Se o gênero de Yellen representa uma quebra importante em um padrão vigente, o outro aspecto relevante da sua nomeação é a continuação das políticas escolhidas pelo seu antecessor. Dada a independência legal e operacional do Fed, a maior influência que o executivo pode exercer sobre suas políticas é na escolha de seu presidente. O fato de Obama ter optado pela promoção interna de uma profissional tão ligada a Bernanke é uma clara sinalização de que, aos olhos do presidente, o Fed está no caminho certo, ou pelo menos em um que garantiu sua reeleição e reforça as chances de que ele consiga eleger uma sucessora em 2016.

Em sua audiência no Senado, Yellen confirmou o apoio à política monetária que ajudou a implementar nos últimos anos: juros muito baixos a perder de vista e a promessa de que estímulos monetários não começam a ser retirados até que a economia (em especial, o mercado de trabalho) mostre sinais claros de recuperação. Que o mercado se vire para tentar antecipar essa recuperação e precificar os juros dos títulos públicos de acordo. Bill Gross, da gigante PIMCO, já anunciou que acha os preços atuais atrativos, apostando contra o consenso do mercado que prevê alta nos juros básicos no final de 2015. Para ele, a economia ainda está em processo de desalavancagem, e a pausa na recuperação na construção de casas causada pelo aumento recente aumento dos juros das hipotecas longas é sinal de que o suporte do Fed ainda é necessário para evitar uma nova recessão.

Se Gross estiver certo, é possível que Yellen consiga terminar o mandato sem se preocupar com o que deve ter tirado o sono de Bernanke por algum tempo–uma estratégia de saída. Suas prioridades são: evitar uma recessão deflacionária, evitar uma recessão deflacionária (sim, novamente) e encarar as crises que provavelmente aparecerão pelo mundo nos próximos quatro anos. Não é fácil, mas o legado que recebe é muito mais confortável do que o deixado por Alan Greenspan para seu antecessor.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

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