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De volta aos dois dígitos

Luciano Sobral

29 de novembro de 2013 | 17h13

Nosso governo gosta de repetir variações da frase “quem aposta contra o Brasil sempre perde”. A volta da taxa Selic para os dois dígitos, padrão com o qual nos acostumamos por muito tempo, mostra que, ao menos no mercado de juros, vale o oposto da versão oficial: quem acha que o Brasil pode sustentar juros básicos abaixo de 10% por muito tempo acaba sempre perdendo dinheiro.

Talvez mais importante do que o nível da Selic seja observar o mercado de títulos indexados à inflação, as NTN-B, que são ótimos instrumentos para avaliar a percepção do mercado sobre os juros reais de longo prazo, não importando por onde anda a inflação. Aqui, o nível-chave é 6% de rendimento anual real, piso que foi testado diversas vezes durante a década passada, sempre se sustentando. Por coincidência ou não, esta também era a meta atuarial de boa parte dos fundos de pensão do país, o rendimento utilizado para calibrar a relação entre contribuições atuais e benefícios futuros. Ao longo de 2012, parecia que os tais 6% haviam virado passado, e que quem não havia aproveitado para comprar papéis longos e travar essa taxa, teria que tomar muito mais risco para igualar esse rendimento. Os juros (taxa interna de retorno) da NTN-B 2022 chegaram a operar abaixo de 3,5% no início deste ano, mas levaram pouco mais de nove meses para voltar acima dos 6% e destruir as carteiras de quem acreditou na tese da “última oportunidade”.

Voltamos aqui à velha e impossível questão dos motivos que levam o Brasil a precisar ter os maiores juros reais do mundo. Mentes muito mais brilhantes do que a deste escriba já gastaram milhares de páginas tentando achar uma boa resposta para essa pergunta, portanto vou me limitar aqui a tentar apontar um motivo pelo qual a mais recente tentativa de baixar os juros pode ter falhado. Olhando os dados mais recentes, é difícil não notar a coincidência entre a queda nos juros e o grande aumento da participação dos bancos estatais na concessão de crédito. Essa atuação pode ter sido contacíclica no início, mas continuou após ter ficado claro que o mundo não passaria por outra recessão como em 2008/2009 e contribuiu para o aumento do consumo que pressionou a inflação e levou o BC a voltar a subir juros.

Essa possível conclusão da história recente leva a outra já conhecida: de que os juros e a inflação brasileira refletem mais os desarranjos de política fiscal do que alguma falta de credibilidade da política monetária (ainda que esta tenha sido colocada em risco com os cortes de juros enquanto a inflação estava perto do teto da meta). O triste corolário é que teríamos que esperar até que os desarranjos fiscais sejam consertados para que possamos alcançar novamente a tal convergência nos juros locais–que, por sinal, nunca chegou para o tomador que não pode contar com linhas de crédito subsidiadas .

O lado positivo da volta dos juros para onde nos acostumamos a vê-los nas últimas décadas é que parte grande da euforia que estava precificada nos preços de ativos brasileiros foi corrigida. Isso deve levar a boas oportunidades no mercado financeiro, com os fluxos de caixa futuros descontados a taxas que parecem mais compatíveis com um equilíbrio de longo prazo. Afortunado foi o gestor que, neste caso, apostou contra o Brasil e pode esperar com o dinheiro em caixa até que os juros e os preços da renda fixa voltassem a mostrar, mais uma vez, que “desta vez é diferente” são as quatro palavras que mais custam no mercado financeiro.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

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