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Desigualdade, a bola da vez

Luciano Sobral

19 de março de 2014 | 15h43

Os países desenvolvidos ainda não saíram da crise iniciada em 2007/2008, mas agora parecem conseguir tratá-la como um problema do dia-a-dia: requer constante monitoramento e esforço, mas não mais choques e medidas de emergência. A última evidência a favor dessa tese foi a mini-crise no Chipre, que completa um ano nesta semana. Os abalos foram restritos ao pequeno país e duraram poucos dias para serem dispersados pelos mercados, que seguira escalando o proverbial muro de preocupações.

Se a tese for verdadeira, talvez os governos desses países já estejam prontos para um novo grande desafio de política econômica. Atualmente, nenhum parece mais saliente do que o da desigualdade, sobretudo nos Estados Unidos. Daniel Markovits, da Yale Law School, recentemente escreveu (tradução minha): “desigualdade econômica está substituindo discriminação racial como o problema moral e político central na vida pública dos EUA.” Tal problema entrou até na agenda de pesquisa do FMI, que, há poucas semanas, publicou um trabalho que conclui que baixa desigualdade de renda é associada com robustez (tanto velocidade quanto duração) do crescimento econômico e que redistribuição, em casos não-extremos, tem impacto positivo no crescimento.

Talvez mais importante do que a entrada do FMI no debate seja o trabalho de acadêmicos como o do francês Thomas Piketty. Piketty lançou há pouco “Capital in the Twenty-First Century”, que já vem sendo saudado como uma das obras econômicas mais importantes das últimas décadas. Em uma entrevista para o New York Times, ele afirma que segue a tradição de grandes economistas do século XIX, como Karl Marx e David Ricardo, com a diferença fundamental de ter disponíveis séculos em dados. Sua principal conclusão: na maior parte do tempo, o capitalismo aprofunda desigualdades.

Se a acentuação da desigualdade de renda parece um fato estabelecido, as prescrições de política econômica decorrentes estão longe de serem consensuais. Piketty argumenta que a solução ideal é criar um sistema de impostos capaz de redistribuir riqueza (o estoque acumulado, não só o fluxo de rendimentos). Economistas liberais, porém, rebatem dizendo que isso reduziria os incentivos para o acúmulo de capital, ou simplesmente faria com que a riqueza deixasse de ser investida nos países que a taxam e flua para paraísos fiscais (o que, em alguma medida, já acontece). De forma ainda mais cética, a brilhante economista e historiadora Deirdre McCloskey recentemente escreveu que mesmo uma distribuição de riqueza radical faria pouca diferença para a pobreza global: todo o patrimônio acumulado dos 85 mais ricos da lista da Forbes equivaleria a um complemento de 10% da renda anual da metade da população mais pobre do mundo, sem repetição no futuro. Ela diz que o que os países pobres realmente precisam é de um choque de produtividade, do mesmo tipo que seguiu a Revolução Industrial e tirou a Europa Ocidental da pobreza.

Pensando em termos internacionais, McCloskey provavelmente está certa, mas isso ainda deixa grande espaço para a discussão de políticas nacionais. Dentro de fronteiras, as diferenças de produtividade são muito menores, e a capacidade de ação muito mais plausível, ainda que sujeita às restrições listadas acima—distorção de incentivos, fuga de capital ou os efeitos colaterais das medidas que teriam ser criadas para restringir esses efeitos.

Se há pouco consenso sobre como combater de forma efetiva desigualdade de renda/riqueza (e mesmo se isso produziria efeitos positivos), até os liberais mais ferrenhos têm dificuldades em discordar que justiça social só é possível no capitalismo se oportunidades são distribuídas de forma mais ou menos equalitária: seria preciso que um filho de desempregados tivesse chances parecidas de chegar a Princeton ou Harvard do que o próximo herdeiro de uma dinastia de banqueiros. Isso, claro, está longe de ser verdade em boa parte do mundo, e é ingênuo acreditar que o mercado resolverá sozinho esse tipo de distorção, sem intervenção do governo. E, se a capacidade de ação do governo é restrita a quanto consegue arrecadar, estamos de volta à discussão de taxação progressiva.

A arena intelectual está aberta, e parece inevitável que a discussão começará a aparecer, em breve, no centro do debate político. Aqui, a grande questão é o complexo equilíbrio entre ceder a tentação populista de redistribuir sem pensar em maiores consequências e, no outro extremo, a tendência ao imobilismo que interessa aos que se beneficiam da desigualdade. O equilíbrio é ainda mais delicado em um mundo que tem dificuldades em gerar crescimento, onde a redistribuição necessariamente é um jogo de soma zero. Alguns prêmios Nobel aguardam as melhores respostas a essas questões.

 

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

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