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Louise Barsi explica como viver de dividendos seguindo o Jeito Barsi de investir

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O Brasil BBB-

Luciano Sobral

28 de março de 2014 | 16h52

O rebaixamento da nota de crédito no Brasil começou em junho do ano passado. Foi quando, após uma forte alta no risco-país, generalizada entre os emergentes de perfil parecido (México, Colômbia, Peru), os demais crédiotos começaram a se recuperar e o risco-Brasil permaneceu significativamente mais alto. Quando o movimento começou, o prêmio do CDS de 5 anos dos quatro países era algo como 170 pontos; hoje, o Brasil segue pagando 170 pontos, enquanto México, Colômbia e Peru pagam, respectivamente, 87, 108 e 113 pontos. O comportamento do CDS brasileiro assemelha-se mais ao da Turquia, que tem uma situação externa muito pior (6% do PIB em déficit de conta corrente, contra menos de 4% do Brasil) e, politicamente, ameaça descambar de vez para o autoritarismo.

O CDS é apenas mais um indicador da piora da percepção dos mercados sobre o risco de se investir no Brasil e o futuro crescimento da economia. Essa deterioração também se reflete no desempenho do mercado de ações, na desvalorização no câmbio e na alta dos juros longos locais (ainda que, neste caso, a política monetária pareça ser o fator preponderante). Também está, praticamente todos os dias, na imprensa local e internacional e no ambiente político, condensado na popularidade da presidente, que, como os CDS, ainda não se recuperou do tombo do meio de 2013.

O anúncio da Standard & Poor’s na semana passada serviu para alimentar as manchetes e jogar alguma água no chope da festa de oito anos de Guido Mantega no comando da Fazenda, mas, do ponto de vista prático, é amplamente irrelevante. Como observado acima, os preços de mercado já, há meses, descontavam essa possibilidade—e, confirmando essa tese, moveram-se para o lado mais otimista após o anúncio. Há quem atribua isso a queda de Dilma nas pesquisas para as eleições de outubro; eu acredito que a explicação está mais ligada a um esgotamento do pessimismo com emergentes (esta semana, também os índices de ações de Rússia e Turquia tiveram fortes altas, e as moedas de diversos emergentes se valorizaram contra o dólar) e algum movimento de cobertura de posições vendidas (a alta de mais de 10% nas ações da Petrobras no período sugere isso).

Como de costume, as agências de classificação de risco não antecipam uma piora nos fundamentos, apenas as constatam, geralmente quando os mercados já corrigiram os preços. Poucas decisões de compra e venda de ativos são efetivamente tomadas em função das notas dadas pelas agências—mesmo em caso de perda do grau de investimento, o impacto de vendas de agentes que não podem investir em títulos de alto risco ou já foi sentido no passado, ou será diluído em um prazo para enquadramento que pode se estender por muitos meses.

O impacto político que alguns sugerem é ainda mais incerto. O rebaixamento deve importar pouco para a maioria do eleitorado, para o qual inflação e emprego seguem sendo as variáveis mais importantes. Dentro do governo e na campanha eleitoral, se a medida gera algum desconforto, certamente é bem menos relevante do que a CPI da Petrobras e o que pode sair dela, só para citar um exemplo recente.

Qual é, então, a diferença do Brasil BBB- de hoje para o Brasil BBB de outrora? De uma semana para outro, claro, quase nenhuma. Em termos de conjuntura, o país vem sofrendo com uma série de escolhas equivocadas de política econômica, menos sorte nos termos de troca, muita frustração com expectativas muito altas alimentadas durante os anos de bonança e quase nenhuma reforma estrutural. Pode-se discutir a nota de crédito em si, mas por muitos critérios, é razoável que ela seja pior do que há alguns anos.

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

 

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