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O Ibovespa está morto, vida longa ao Ibovespa!

Luciano Sobral

18 de setembro de 2013 | 23h24

Um exercício simples, que pode ser resolvido com duas buscas na internet: quais são as 10 maiores companhias dos Estados Unidos? E do Brasil? Se usarmos como critério as receitas anuais, as respostas são, para os EUA: Wal-Mart, Exxon Mobil, Chevron, Phillips 66, Berkshire Hathaway, Apple, General Motors, General Electric, Valero Energy e Ford Motor; e, para o Brasil: Petrobras, BR Distribuidora, Vale, Ipiranga Produtos, Volkswagen, Cargill, Fiat, Vivo, Raízen e Bunge. Todas as 10 maiores americanas fazem parte do S&P 500, o principal índice do mercado de ações por lá. No Brasil, apenas três são listadas na Bovespa, sendo uma delas de controle estatal.

O problema, claro, não é novo: é um quase-clichê entre os gestores de dinheiro brasileiros repetir que “o que é bom no Brasil está fora da bolsa” e que o Ibovespa não representa bem o mercado de capitais. Tais afirmações refletem duas características do mercado brasileiro que merecem ser analisadas separadamente:

– Primeiro, a dificuldade das empresas para se financiarem no mercado local–não apenas no de ações, o mercado de dívida corporativa é ainda menos desenvolvido. A maioria das grandes empresas depende de uma combinação de capital estrangeiro e estatal; aos pequenos, resta reinvestir lucros e tomar crédito em bancos. Isso passou longe de mudar com a queda recente dos juros (que serviu para um grande crescimento da securitização imobiliária, porém). O último espasmo de mudança no cenário foi em 2007, logo enterrado pela crise global e, posteriormente, pela rápida e profunda decepção com os retornos da maioria dos investimentos em empresas brasileiras (ainda não houve a grande frustração com os investimentos em imóveis no último par de anos). Nesse sentido, o Brasil apresenta um paradoxo interessante, já que, aparentemente, não há arbitragem entre os juros baixos pagos pela dívida pública e os retornos para o investimento em ações. O quanto isso pode ser atribuído ao comportamento do governo e a rent-seeking generalizado é tema para vários estudos acadêmicos e outras colunas futuras;

– Segundo, os problemas que culminaram com a revisão da metodologia de cálculo do Ibovespa. As bizarrices criadas pelo critério de “negociabilidade”, mais uma de nossas jabuticabas, não nasceram com as empresas do grupo X: quando comecei a trabalhar, o giro da Bovespa era dominado pelos Recibos de Carteira da Telebrás (RCTB), que chegaram a representar algo como ¼ do índice; os mais experientes devem lembrar de outros casos similares. O fato da bolsa finalmente ter cedido e resolvido simplificar e racionalizar o Ibovespa é um bom sinal, de mais poder relativo aos investidores frente aos especuladores costumeiros (geralmente detesto essa falsa dicotomia, mas acho que aqui ela se aplica bem, se limitarmos a categoria de “especuladores” os que lucram com manipulação do índice). Logo descobriremos os problemas de índices ponderados por valor de mercado, mas, evidentemente, não há solução perfeita.

Outra reflexão pode ser feita sobre a utilização de índices como benchmark para carteiras de investimentos e critério de remuneração para gestores. Ações podem ser baratas ou caras ao longo do tempo; o que não muda é a dura realidade de composição de retornos, cuja base é a preservação do investimento inicial. O investidor médio estaria mais bem servido se o mercado migrasse para metas de retorno absoluto, algo como um prêmio de risco, dependendo da natureza do investimento, sobre os juros interbancários.

O Ibovespa está morto, vida longa ao Ibovespa–tem tudo para ser uma referência de mercado melhor do que seu antecessor, mas deve ser tomado com os grãos de sal habituais (e aguardemos os primeiros gritos de “o governo mudou até o Ibovespa pra fazer parecer que a bolsa brasileira está melhor”).

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