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O interminável reinado do CDI

Luciano Sobral

10 de fevereiro de 2014 | 15h47

Deve haver poucos lugares onde a máxima “dinheiro é rei” vale tanto quanto no Brasil. Em tempos de crise, diz a sabedoria dos mercados, ter dinheiro em caixa, mesmo sem receber juros, é imperativo para o bom desempenho de qualquer carteira de investimentos. Primeiro, porque em tempos difíceis não perder é a maneira mais fácil de bater a concorrência. Segundo, porque a flexibilidade decorrente permite aproveitar as boas oportunidades que uma liquidação generalizada proporciona. Por aqui, entretanto, mesmo nos períodos de bonança não é fácil bater o rendimento do dinheiro emprestado por um dia, com garantias, para bancos (ou para o banco central).

No período de 10 anos terminado em 2013, o Ibovespa ganhou pouco mais de 130% – 100 reais investidos teriam virado 231 (todas as contas aqui sem descontar impostos e eventuais taxas). Parece um bom desempenho até se comparar com o CDI, que, no mesmo intervalo, rendeu 215%, transformando 100 reais em 315 sem nenhum susto. O último ano em que o Ibovespa bateu o CDI foi 2009 – ainda assim, na recuperação da crise que havia tirado mais de 40% do valor do índice. Acumulando 2008 e 2009, o Ibovespa subiu 7,4%, enquanto o CDI somou 23,5%. A alegria para o investidor em ações no Brasil acabou em 2007, ainda o primeiro ano do segundo mandato de Lula.

Nesse tempo, o reinado do CDI foi ameaçado em duas ocasiões: a escalada da Bovespa que seguiu a forte desvalorização de ativos do país em 2002 atraiu muito dinheiro para ações, com a esperança de que os retornos passados fossem repetidos indefinidamente. O pico de otimismo foi atingido com as descobertas de petróleo no pré-sal e a promoção do crédito externo do país para grau de investimento, e foi destruído com a crise global. Mais recentemente, em 2012, a tentativa do banco central de levar os juros reais para os 2% prometidos pela presidente no seu discurso de posse provocaram uma corrida para a renda fixa. A “vingança do CDI” veio no ano passado, com títulos públicos e fundos de crédito sofrendo com a reversão da política monetária e a volta dos juros para os costumeiros dois dígitos.

Sem tocar na complexa discussão de porque os juros de um dia são tão altos, a breve retrospectiva acima tem vários elementos decisivos para o entendimento dos mercados brasileiros nos últimos anos. Ainda temos um mercado de ações pouco desenvolvido, muito concentrado no setor de commodities e que não representa o relativo dinamismo do mercado interno. Por outro lado, o péssimo desempenho do Ibovespa nos últimos anos reflete o tamanho da aposta que o país fez nas descobertas de petróleo. Sem a aventura da OGX e o enorme montante de capital levantado pela Petrobras, tanto em forma de dívida quanto por emissão de ações, a história seria bem diferente. Da mesma maneira, é difícil não condicionar o futuro do índice ao desfecho dos investimentos na exploração do pré-sal.

Numa perspectiva mais geral, vale notar que, muitas vezes, o mercado e os investidores por vezes subestimam a dificuldade de gerar retornos que superem a remuneração garantida pela condução da política monetária. Assim, é difícil enxergar um fim para o reinado do CDI enquanto o cumprimento da meta de inflação depender apenas da taxa Selic, com pouca ajuda das contas do governo ou da política de reajuste do salário mínimo. Além disso, a alocação de recursos em ativos de pouco potencial de retorno que caracterizou o ciclo recente de otimismo deve seguir pressionando os ganhos no setor privado. A construção de estádios para a Copa em cidades onde o investimento não deve se pagar até o apocalipse pode ser uma caricatura extrema, mas a onda que segue no mercado imobiliário é uma âncora para os retornos agregados na economia. Investimentos seguem sendo feitos mesmo quando os juros implícitos nos aluguéis futuros raramente chegam a 5% reais anuais ou dependem de premissas exageradamente otimistas.

A conjunção dos velhos problemas estruturais do país (que perduram, enquanto a conjuntura política passa longe de qualquer ímpeto reformista) com as expectativas equivocadas de que, finalmente, o país iria decolar, geraram um cenário onde, no setor privado, há riscos sem retorno e é possível seguir tendo retornos sem risco no velho e bom overnight. A variável de ajuste é o preço dos ativos, que, se já há algum tempo deixaram de refletir euforia, ainda não parecem baixos a ponto de atrair novos investimentos. Um choque é necessário para que o marasmo atual seja quebrado, e é difícil enxergar algum positivo, ao menos antes do desfecho das eleições presidenciais. Enquanto se espera, pouca coisa parece melhor do que seguir confiando no rei CDI.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

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