finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os caminhos divergentes de Brasil e Argentina

Luciano Sobral

25 de novembro de 2013 | 14h46

Os dados de Brasil e Argentina fornecerão material riquíssimo para os historiadores econômicos de um futuro não muito distante. Ao fim de um período de câmbio fixo e muto valorizado (final dos anos 1990 / início dos anos 2000), os dois países partiram de níveis similares de renda per capita e desde então vêm aprofundando a divergência entre a condução de suas políticas econômicas. O Brasil trocou a âncora nominal do câmbio por metas de inflação e de resultado fiscal (duas pernas do famoso “tripé macroeconômico”); a Argentina, após o maior calote de dívida externa da história, tem se dedicado a abandonar qualquer espécie de âncora e navegar ao gosto do casal de capitães Kirchner. A recente ascensão ao posto de ministro de Axel Kicillof, o arquiteto da nacionalização da petrolífera YPF e representante de uma nova geração da longa tradição de economistas heterodoxos no continente, parece ser uma reafirmação desse caminho.

Os dados reportados ao FMI (comentados adiante) mostram que o crescimento argentino tem, há muito tempo, superado o brasileiro. Nos últimos dez anos, o PIB real brasileiro cresceu 45%, enquanto a Argentina cresceu 68%. Desde 1994, a mesma medida dobrou para a Argentina e cresceu 79% para o Brasil. Isso leva parte da academia brasileira a prontamente concluir que estamos perdendo ao não copiar o “modelo de sucesso” dos vizinhos e suas implicações: mais controles de preços, nacionalizações, tolerância com inflação, desvalorização do câmbio (e possível adoção de mais de uma taxa, beneficiando diretamente quem tem acesso a dólares ao preço oficial) e interferência generalizada do governo no maior número possível de setores da economia.

Contra isso, pode-se argumentar, primeiro, que há algum tempo as estatísticas oficiais argentinas deixaram de ser confiáveis, entre manipulações dos índices de preços e tentativas de fazer com que o crescimento oficial não implique em pagamentos maiores para os detentores dos títulos (oferecidos na renegociação da dívida, em 2002) atrelados a essa variável. Dessa forma, a comparação muda radicalmente se usarmos medidas alternativas de inflação, e os dados oficiais do PIB estarão sujeitos a grandes revisões quando cessar a interferência do governo federal no INDEC, o equivalente argentino do IBGE.

Segundo, a Argentina cresce em espasmos seguidos por períodos de profunda depressão, consequência direta da escolha de um modelo que prefere acumular e disfarçar grandes desequilíbrios de preços relativos antes de tentar resolvê-los. Uma das evidências em comum no padrao de crescimento dos países que se tornaram ricos são longos períodos de crescimento constante, (média perto de 2% ao ano), sem grandes quebras, mas não espetacular. Por essa ótica, talvez tenhamos algo a comemorar da nossa aparente mediocridade estável. Por fim, talvez vivemos em um período em que os tais desequilíbrios estejam próximos de causar outra crise na Argentina, enquanto no Brasil os mercados já refletem certa desilusão e o governo tenta, ainda timidamente, voltar a alguma ortodoxia na condução da política econômica.

Se pouco se sabe do que será da política econômica brasileira após as eleições presidenciais do ano que vem, por enquanto temos estabelecida uma diferença fundamental: mesmo sem grande convicção, o Brasil tem deixado os fundamentos do país serem refletidos no mercado financeiro, fugindo da tentação de manipular preços e indicadores (a mais clara exceção estã nos preços de combustíveis). Também evitamos outra grande tentação: a de voltar a contar com a inflação para financiar o déficit público, caminho seguido tanto pela Argentina quanto pela Venezuela e, em menor escala, Índia. O fato disso parecer inaceitável para a maioria dos envolvidos no debate econômico no país parece-me uma saudável indicação de que, devagar, evoluímos na direção de debater os verdadeiros problemas no país, sem acreditar em soluções mágicas e jovens ministros com ideias revolucionárias.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: