“Anúncio” da Anfavea revela desorganização do governo em decidir

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

“Anúncio” da Anfavea revela desorganização do governo em decidir

Presidente da entidade, Luiz Moan, divulga medida que contraria Joaquim Levy e expõe pressão sobre o ministro da Fazenda

Adriana Fernandes e Ricardo Brito

10 de novembro de 2015 | 15h49

Luiz Moan (Clayton de Souza/Estadão)

Luiz Moan (Clayton de Souza/Estadão)

O “anúncio” extraoficial feito ontem pelo presidente da Anfavea, Luiz Moan, de reabertura dos prazos do programa PSI do BNDES (para financiamento de máquinas e equipamentos) é a fotografia mais fiel da desorganização do processo decisório dentro da equipe da presidente Dilma Rousseff.

Moan, que comanda uma das maiores entidades empresariais com poder de lobby em Brasília, alega que recebeu orientação do ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, para fazer o que fez com autorização da presidente. Ou seja, anunciar como oficial uma medida que nem sequer foi aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O presidente da entidade diz que recebeu uma ligação de Jaques Wagner na sexta-feira à noite com o sinal verde para o anúncio, depois de uma negociação que se estendeu ao longo da semana passada. A força do setor automotivo – um dos mais beneficiados pelas medidas de estímulo com benefícios tributários e creditícios pela equipe do ex-ministro Guido Mantega – continua tendo efeito na capital federal.

O mais singular na nova queda de braço em torno de medidas de crédito que envolvem o BNDES é que nem a Fazenda e nem a Casa Civil vieram a público para confirmar ou desmentir o que disse Moan na sua mais recente função de “porta-voz” da equipe econômica. A redução do papel do banco de fomento como motor da economia – dinâmica presente na política anterior de concessão de incentivos – é central na gestão Levy.

O mal-estar está instalado e reforça os sinais da renovada pressão sobre o ministro da Fazenda, que permanece aquecida na Esplanada dos Ministérios num ambiente alimentado pelo agravamento do quadro de recessão.

Há um reclame na ala política por medidas que possam se contrapor ao ajuste fiscal de Levy. Dilma pode até ter reafirmado a permanência do ministro, mas está no ar o eco da fala do presidente do PT, Rui Falcão, que, em meados do mês passado, sugeriu que Levy saísse se não concordasse com mudanças na política econômica.

O mercado acompanha com atenção o movimento em torno das discussões dentro do governo sobre crédito. Há quem enxergue que a preocupação na área não deveria ser gerar crescimento, mas, sim, em impedir uma quebradeira no País. O risco de crédito está subindo, ainda que as taxas de inadimplência ainda não estejam mostrando isso. Vai ser difícil para o ministro da Fazenda navegar nesse ambiente.

Escreva para nós: lupa@estadao.com

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: