Às vésperas de protestos, tragédia do PIB pressiona Barbosa

Queda de 3,8% da economia brasileira no ano passado e aumento da crise política com delação de Delcídio pressionam ministro da Fazenda a reagir

Adriana Fernandes e Ricardo Brito

03 de março de 2016 | 17h52

(Nelson Barbosa/André Dusek-Estadão)

(Nelson Barbosa/André Dusek-Estadão)

Chamado em tom de ironia dentro do governo de “PIB Levy”, o recuo de 3,8% da economia brasileira em 2015 – o maior desastre econômico no País desde 1990 – pode levar a dois movimentos políticos em direções completamente opostas, a depender da capacidade do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de construir unidade em torno de uma agenda mínima em favor do crescimento, da saúde das empresas brasileiras e do emprego.

Ou o governo consegue sensibilizar as lideranças políticas e empresariais para aprovar os projetos econômicos prioritários e não desperdiçar o que o ministro da Fazenda tem chamado de “boa crise” – a oportunidade para avançar nas reformas estruturais. Ou o tombo na economia vai alimentar o movimento de independência do Congresso na direção de uma agenda econômica própria que tem tudo para desgastar ainda mais a presidente Dilma Rousseff e atrasar a votação da pauta de projetos desenhada pela sua equipe econômica.

Aí, inclui-se ainda uma elevação da pressão sobre Barbosa do PT, o partido do governo. Apesar de não ter completado nem mesmo três meses no cargo, Barbosa não foi poupado das críticas das lideranças petistas e do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conclamam o ministro a fazer uma mudança radical na política econômica para acelerar o crescimento – o que o próprio Lula não fez no início de seu primeiro mandato. O “fator Lula” e as eleições municipais deste ano têm sido desfavoráveis ao ministro, que tem de lidar com uma agenda de 22 itens de um programa nacional de emergência do PT que prega que o “Futuro está na retomada das Mudanças”.

Por enquanto, é a segunda direção que parece ter mais condições de prosperar, num ambiente político cada mais conflituoso em torno do cerco da Operação Lava Jato em torno da presidente, que se complica com o acordo da delação premiada do senador e ex-líder do governo Delcídio Amaral (PT-MS). A cobrança da oposição por impeachment ou por eleições antecipadas via cassação da chapa Dilma/vice Michel Temer volta a crescer – resta saber se o protesto das ruas do dia 13 de março vai embalar essas saídas.

Mesmo diante de toda a pressão, Barbosa conta com o início do processo de queda da inflação, o avanço na votação dos projetos econômicos (que podem melhorar as expectativas) e os primeiros sinais de recuperação econômica e da confiança no segundo semestre para o governo e o PT não chegarem mortos nas eleições. Uma característica da personalidade do ministro – que chegou ao cargo prometendo aperfeiçoar a política econômica para garantir crescimento – é que ele se mantém confiante na capacidade de sua estratégia de dar certo.

O caminho está cada vez mais difícil. Tudo aponta na direção de que a recessão de 2016 será maior do que a de 2015. A estratégia passa a ser agora conseguir algum crescimento em 2017. Se o governo resistir a travessia.

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