Com Lava Jato contra Lula, PT deve se divorciar de Dilma

Partido tende a optar por ex-presidente, tido como maior ativo eleitoral, do que a atual ocupante do Planalto.

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

04 de março de 2016 | 10h52

Lula e Dilma (Dida Sampaio/Estadão)

Lula e Dilma (Dida Sampaio/Estadão)

A nova fase da Operação Lava Jato, que tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como principal alvo, deve fazer com que o PT se divorcie da presidente Dilma Rousseff. Os petistas não vão perdoar o fato de Dilma – eleita e reeleita por Lula – não ter conseguido controlar a Polícia Federal que hoje conduz coercitivamente o ex-presidente para depor. Entrou na “casa política” dele, o Instituto que leva o seu nome, e deve se estender ainda aos familiares do maior líder político do partido (e do País).

Nos últimos meses, Lula bem que tentou se vacinar a esta fatídica fase, que ocorre nesta sexta-feira, 4. Reforçou sua equipe de advogados criminalistas, exortou a militância e petistas no Congresso a defendê-lo e ainda pediu nos bastidores a cabeça de José Eduardo Cardozo do Ministério da Justiça – o ministro petista deixou oficialmente o cargo ontem (ao que tudo indica, já ciente da ação que envolveria Lula).

A ação deflagrada pela PF – diga-se, autorizada pelo juiz Sérgio Moro – pode ter quebrado um dos raros fios que seguravam a tênue relação entre Dilma e Lula. O ex-presidente reclamava da antecessora que não ouvia seus conselhos para a reanimar a economia – principalmente o aumento de crédito por meio de bancos públicos num PIB que caiu 3,8% no ano passado – e para a política. Ele queria que Dilma conversasse mais com os partidos da base a fim de tentar superar a crise.

De um lado, o PT tem uma presidente com baixíssimos índices de aprovação que está sob ameaça de ser afastada. A revelação ontem pela revista IstoÉ da delação premiada do ex-líder do governo dela, o petista Delcídio Amaral, que a implicou diretamente numa tentativa de liberar empreiteiros presos na Operação Lava Jato reacendeu o ânimo da oposição pela saída de Dilma. Afastamento que poderia vir por meio de um processo de impeachment, via cassação de mandato pela Justiça Eleitoral, que atingiria também o vice Michel Temer, ou até pela renúncia dela.

De outro lado, o partido ainda dispõe de Lula como seu maior ativo eleitoral, seja para suceder Dilma no caso de novas eleições antecipadas ou para o pleito de 2018, apesar da operação da PF e da série de investigações envolvidas no caso. A oposição aposta na sangria dele para voltar ao Palácio do Planalto. Por isso o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), libera seus aliados a desgastarem o quanto podem o ex-presidente.

Nessa equação, o partido tende a escolher Lula – um indicativo dessa opção é o fato de deputados e senadores petistas decidirem seguir para São Paulo para acompanhar o caso. Dilma deve ficar ainda mais isolada para garantir uma mínima governabilidade e ainda levar adiante o ajuste e as reformas como a fiscal e a da Previdência (essa última combatida pelo PT).

Até o momento o PMDB, partido esteio da presidente, ainda não se moveu diante dos últimos acontecimentos. Os próximos lances vão mostrar se os demais partidos da base também continuarão a sustentá-la, o que pode agravar o risco dela de permanência no cargo.

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