Com Renan como árbitro, Temer não pode errar muito e Dilma só acertar

Com Renan como árbitro, Temer não pode errar muito e Dilma só acertar

Presidente e vice disputam "corrida" ao Planalto em cenários adversos. A primeira precisa reverter decisão desfavorável da Câmara e o segundo tem de convencer senadores e desafeto Renan de que é uma mudança possível

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

18 de abril de 2016 | 16h35

(Temer, Dilma e Renan - José Patrício-AE)

(Temer, Dilma e Renan – José Patrício-AE)

Depois da votação do impeachment de domingo (17) pela Câmara com ares plebiscitários, o vice-presidente Michel Temer não pode errar muito caso queira chegar ao Palácio do Planalto nas próximas semanas com a eventual aprovação pelo Senado do afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff.

À petista, só é dado o dever de acertar caso ainda queira ter alguma chance de reversão entre os senadores – Dilma só obteve 28,4% de apoios dos deputados, enquanto precisava de ao menos 33%, e a votação do afastamento no Senado passará apenas com maioria simples. Terá de cabalar um apoio do Senado que se esvaiu principalmente no segundo semestre do ano passado diante do agravamento das crises.

Mesmo que as projeções indiquem votos suficientes para Temer no Senado, o vice terá de fazer acenos políticos aos senadores para não dificultar a conquista e/ou manutenção de apoios e, em especial, se aproximar do presidente da Casa, seu desafeto histórico no PMDB Renan Calheiros (AL).

Sob alvo de nove inquéritos da Operação Lava Jato, Renan conseguiu se afastar desse noticiário negativo durante mais de um ano construindo uma “narrativa blindagem” de atuação legislativa com base em melhorias para o ambiente econômico. E, a partir dela, se aprofundou ou construiu em torno de si um leque de apoios de partidos da base aliada de Dilma (no papel), independentes e da oposição. Esse ativo, para sucesso de um futuro governo Temer, é de suma importância.

Sutilmente, o ainda vice-presidente terá de garantir um encurtamento do prazo para a votação sobre o afastamento do Senado – o prazo estimado pela assessoria de Renan de 24 dias desde a decisão de ontem é demasiado e só contribui para as incertezas. Como fazer isso, por ora é uma incógnita.

Ao mesmo tempo, Temer terá de se equilibrar entre dois pontos: a divulgação com maior clareza de esboços do que seria o seu governo – que não terá como prescindir da adoção rápida de medidas econômicas mais drásticas diante da forte recessão e da grave crise fiscal; e a possibilidade de um não afastamento de Dilma pela aversão às futuras ações que ele poderá propor.

Até mesmo a divulgação de cotados para áreas como a Fazenda e a Justiça podem melhorar ou piorar o clima. Com o respaldo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a bancada do PT e aliados dela do Senado certamente vão intensificar artilharia contra o plano do ainda vice – a tática de atuação já está sendo definida hoje em reunião dos senadores. Temer tem tudo para vencer, mas Dilma também não está totalmente fora do baralho.

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