“Condenada”, Dilma abre discurso para Lula em 2018 e pressiona Temer

“Condenada”, Dilma abre discurso para Lula em 2018 e pressiona Temer

Presidente afastada ataca eixo das medidas econômicas do governo Michel Temer, como a PEC do Teto dos Gastos e a futura reforma da Previdência, e reforça discurso para Lula e o PT de olho nas próximas eleições presidenciais

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

29 de agosto de 2016 | 12h23

(Dilma Rousseff/Dida Sampaio-Estadão)

(Dilma Rousseff/Dida Sampaio-Estadão)

Nos 44 minutos do histórico pronunciamento no Senado, a presidente afastada, Dilma Rousseff, encarnou o papel de provável “condenada” no processo de impeachment a que responde por crime de responsabilidade, mas abriu caminho para reforçar o discurso eleitoral de 2018 para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT, legenda que ela vem se distanciando nos quase nove meses de tramitação do pedido no Congresso.

Citando cinco vezes estar sendo vítima de um “golpe”, a petista disse que houve um complô da oposição para desestabilizar o governo desde a sua reeleição e criar as condições para o pedido de impeachment. E, nesse ambiente de turbulências e incertezas, o risco provocado pelo ativismo de parte dos oposicionistas tornou-se um “elemento central” para a retração do investimento e para o aprofundamento da crise econômica.

Dilma disse ter buscado o reequilíbrio fiscal desde 2015, embora tenha contado com forte resistência na Câmara, presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), lembrando da existência das “pautas bombas”. E que essas dificuldades por que passou comprometeram sua gestão fiscal, que é consequência e não causa do agravamento da recessão econômica. “Sem essas ações, o Brasil certamente estaria hoje em outra situação política, econômica e fiscal”, reforçou Dilma.

Durante o pronunciamento, a presidente afastada atacou duramente a primeira medida do ajuste fiscal do governo do presidente em exercício, Michel Temer, a PEC do Teto dos Gastos. E, embora tenha remetido ao Congresso no início deste ano uma proposta com conceito semelhante, deu munição para que o PT e a oposição questionem essa proposta da provável gestão do presidente interino.

“A ameaça mais assustadora desse processo de impeachment sem crime de responsabilidade é congelar por inacreditáveis 20 anos todas as despesas com saúde, educação, saneamento, habitação. É impedir que, por 20 anos, mais crianças e jovens tenham acesso às escolas; que, por 20 anos, as pessoas possam ter melhor atendimento à saúde; que, por 20 anos, as famílias possam sonhar com casa própria”, acusou.

A petista também criticou as ainda nem remetidas reforma da Previdência e trabalhista. Sobre a primeira, disse que desvincular o piso das aposentadorias e pensões do salário mínimo será “a destruição do maior instrumento de distribuição de renda do País”. Para ela, o resultado disso será “mais pobreza, mais mortalidade infantil e a decadência dos pequenos municípios”. Quanto à segunda, afirmou que a revisão dos direitos e garantias sociais previstos na CLT e a proibição do saque do FGTS na demissão do trabalhador “são ameaças que pairam sobre a população brasileira caso prospere o impeachment sem crime de responsabilidade”. As duas reformas foram também prometidas pelo seu ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Com o discurso, a petista jogou pressão ao ajuste fiscal de Michel Temer, que terá de tomar medidas impopulares para consertar as contas públicas.

Dilma também marcou ainda mais uma oposição administrativa-eleitoral que Temer terá em seu provável governo por dois lados: a do PT, já liderada pelo ex-presidente e presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva, e que vai questionar a perda de direitos nos 13 anos da gestão petista em nível federal; e a outra do PSDB e do DEM, defensores de um rigor das contas públicas, que conta com ao menos quatro potenciais candidatos ao Palácio do Planalto – os tucanos Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin e o democrata Ronaldo Caiado.

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