Demissões na Esplanada preparam terreno para Temer governar

Demissões na Esplanada preparam terreno para Temer governar

Cortes em ministérios abrem espaço para presidente em exercício fazer nomeações e ainda imprimir um discurso de contraponto à DIlma Rousseff

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

28 Julho 2016 | 17h20

( Ricardo Barros/Jales Valquer-Fotoarena)

( Ricardo Barros/Jales Valquer-Fotoarena)

A decisão do ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP), de demitir 73 funcionários ocupantes de cargos comissionados na Pasta é mais um passo do governo do presidente em exercício, Michel Temer, na preparação do terreno para comandar, em definitivo, o País após a votação do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.

Barros seguiu a orientação do Palácio do Planalto de cortar cargos, mesmo sem ter substitutos já confirmados e até com a possibilidade de retorno dos exonerados aos postos. Num recado ao governo Dilma, do qual foi vice-líder do governo na Câmara, ele disse que há sim “aparelhamento” do Estado e que é necessário enxugar a máquina pública.

A ação do titular da Saúde ocorre dois dias após o Ministério da Cultura ter demitido 81 funcionários e o ministro da área, Marcelo Calero, também ter dito ser necessário acabar com o “aparelhamento” do órgão.

No mês passado, o governo Temer prometeu cortar 4,3 mil cargos em comissão, funções e gratificações e reservar outros 10.462 cargos comissionados de Direção e Assessoramento Superiores, os famosos DAS, exclusivamente para servidores públicos de carreira.

A medida – se for mesmo adiante – poderá gerar uma economia de R$ 230 milhões ao ano, pouco para quem tem um rombo fiscal de R$ 170,5 bilhões este ano. Mas o esforço é maior do que Dilma conseguiu fazer: ela disse que iria cortar 3 mil cargos na reforma administrativa anunciada em outubro, mas não chegou sequer à metade antes de ser afastada em maio.

O discurso do “corte na carne” e do “aparelhamento” da gestão Temer visa a marcar sua diferença em relação à Dilma. Primeiro constrói um discurso de expurgo principalmente de petistas que estariam enfronhados na máquina pública desde 2003, com a chegada de Lula ao Planalto. Ainda atende a reclames de parlamentares, como o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que sempre defendeu que o Executivo dê um exemplo fazendo sacrifício para depois cobrar da população um eventual aumento de impostos. Também abre caminho para acomodar aliados.

Nesses casos, mais vale a narrativa a ser criada do que o esforço fiscal empreendido pelo governo – que preferiu apoiar a aprovação de aumentos para servidores que ultrapassam R$ 50 bilhões, com reflexos até para quem vai presidir o País a partir de 2019.

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