Dilma e Temer se digladiam e inflação estoura meta…

Dilma e Temer se digladiam e inflação estoura meta…

Após inflação recorde ano passado, alta de preços seguirá em 2016. Na luta do impeachment, presidente e vice não apresentam soluções para combater a carestia

Adriana Fernandes e Ricardo Brito

31 Março 2016 | 16h40

(Dilma e Temer/Reuters-Ueslei Marcelino)

(Dilma e Temer/Reuters-Ueslei Marcelino)

A possibilidade do estouro da meta da inflação em 2016, pelo segundo ano consecutivo, admitida hoje pelo Banco Central (BC), adiciona mais pólvora no debate político que cerca o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

De todos os problemas econômicos do Brasil, a alta dos preços – ao lado do desemprego – é o que tem mais alcance na população. O estrondoso rombo nas contas públicas, que deve superar R$ 100 bilhões em 2016, não tem o poder de estrago que a resistência da inflação elevada faz junto à opinião pública.

Pelas mais recentes projeções do BC, incluídas no Relatório Trimestral de Inflação divulgado hoje, o IPCA fechará o ano em 6,6%, acima do teto da meta de 6,5% fixada pelo próprio governo. Só para lembrar, o índice em 2015 ficou em 10,67%, o maior desde 2002.

A projeção da alta dos preços em 2016 subiu 0,4 ponto porcentual de dezembro para março, justamente no período em que cresceram as pressões dentro e fora do governo para que o BC começasse a reduzir as taxas de juros por causa da recessão econômica e do cenário externo.

Nesse período, o BC manteve a taxa de juros em 14,25% após ter feito uma comunicação errática. Contudo, agora diz que não há condições para flexibilização da política monetária, mesmo com a piora da atividade econômica.

Apesar do duplo fracasso econômico – fiscal e monetário -, o caldeirão político em que vive hoje o País pôs em segundo plano as medidas para acertar essas duas questões, com a justificativa de que a crise econômica só será resolvida depois da solução política.

Enquanto isso, a economia vai sangrar mais, processo que pode se estender mesmo na hipótese de a presidente Dilma ser afastada do cargo até o julgamento final do impeachment, o que, pelas previsões, ocorreria em definitivo lá pelo mês de outubro.

Num eventual período de interinidade (até o julgamento final de Dilma), é pouco provável que o governo Michel Temer e a equipe econômica, que por ventura o PMDB venha a formar, tenham condições políticas de adotar medidas impopulares que precisam ser feitas imediatamente para corrigir os rumos da política econômica.

O documento “Ponte para o Futuro”, lançado pelo PMDB em outubro passado e única baliza de uma eventual gestão Temer, diz apenas que um dos objetivos a serem alcançados é, em no máximo três anos, levar a inflação para o centro da meta de 4,5%. Como? Não diz.

Temer vai precisar do apoio da população, que, segundo pesquisas de opinião, rejeita mais sacrifícios. E nesse cenário, a economia tende a continuar sem rumo claro. É bom lembrar que, ao contrário do que ocorreu no processo de impeachment de Fernando Collor, quando todos estavam contra o então presidente – agora a disputa é polarizada com lados que armam suas forças para esse momento.

Enquanto aliados de Dilma – inclusive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e de Temer fazem um leilão com cargo e verbas pelos votos contra e a favor do impeachment, os dois lados passam ao largo de um combate efetivo ou de apresentação de propostas concretas para debelar um fantasma que fazia parte da vida dos brasileiros até o Plano Real de 1994.

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