Estratégia de Temer sobre Copom repete ação com a meta fiscal

Estratégia de Temer sobre Copom repete ação com a meta fiscal

Presidente em exercício desautoriza Padilha e reforça, assim como na discussão sobre o déficit, papel da equipe econômica

Adriana Fernandes e Ricardo Brito

20 Julho 2016 | 17h02

(Eliseu Padilha/Brazil Photo Press)

(Eliseu Padilha/Brazil Photo Press)

Em dia de definição do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), o presidente em exercício, Michel Temer, desautorizou publicamente o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, sobre a possibilidade de queda da taxa de juros.

Padilha disse que Temer via com “bons olhos” a queda dos juros dos atuais 14,25% ao ano, mas o presidente poucas horas depois foi logo avisando que o Banco Central tem autonomia para definir a Selic.

Ao contrário do que pode parecer numa primeira análise, não se tratou de um “cala boca” clássico de um presidente da República em um ministro que falou demais sobre um assunto tão delicado. Ainda mais faltando tão pouco da decisão sobre a taxa Selic do novo BC conduzido por Ilan Goldfajn. A primeira dele no comando da instituição.

A estratégia acabou funcionando como um reforço do presidente no discurso de autonomia do BC sobre a condução da política monetária, principalmente depois que Ilan se comprometeu em levar a inflação para o centro da meta de 4,5% em 2017. Esse discurso serve para reforçar qualquer que seja a decisão do Copom.

Movimento semelhante ocorreu na definição da meta fiscal de 2017, quando a ala política do governo fez coro público por um déficit maior para acomodar riscos que venham acontecer.

Quando a meta fiscal mais apertada foi anunciada com um déficit de R$ 139 bilhões, o sinal transmitido foi de vitória da equipe econômica. E mais uma vez o embate entre as ala “política” e “econômica” acabou impactando positivamente as expectativas em torno do compromisso do governo com o ajuste fiscal. O mesmo deve acontecer agora com a inflação.

No governo da presidente afastada, Dilma Roussef, as recorrentes declarações da petista sobre autonomia do BC levaram a um sinal inverso do pretendido: o descrédito autoridade monetária. A própria Dilma não contribuiu para reforçar o papel do banco ao se reunir com o então presidente do BC, Alexandre Tombini, em época de Copom – encontro revelado pela imprensa.

Que Temer não siga por idêntico caminho, mesmo diante da pressão de aliados.

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