Janot encurta perspectivas de Dilma

Janot encurta perspectivas de Dilma

Parecer de procurador-geral contra nomeação de Lula e que também indica futura investigação da presidente diminui raio de ação do governo às vésperas da votação do impeachment

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

08 de abril de 2016 | 13h17

 

(Rodrigo Janot/André Dusek-Estadão)

(Rodrigo Janot/André Dusek-Estadão)

A no mínimo curiosa e pouco usual decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de se manifestar em novo parecer contra a assunção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao cargo de ministro da Casa Civil encurta o raio de ação da presidente Dilma Rousseff às vésperas da votação do impeachment dela na Câmara.

As potenciais implicações políticas e econômicas são evidentes. O parecer de Janot sinaliza que o chefe do Ministério Público Federal deverá abrir em breve uma investigação por obstrução da Justiça contra Dilma – o que seria inédito ao menos desde a Constituição de 1988 para uma presidente – e indica ainda que o ex-presidente queria conquistar um foro privilegiado para evitar ser investigado pelo juiz Sérgio Moro.

Nesse segundo aspecto, reside uma potencial redução do “valor de negociação” de Lula. Isso porque ele, mesmo sem cargo, se tornou o principal fiador nas negociações para conquistar votos de deputados em troca de espaços no governo para derrotar o pedido de afastamento da presidente já na Câmara.

Parlamentares petistas que o visitaram nos últimos dias em um hotel em Brasília, que se tornou uma espécie de ministério paralelo, depositam suas esperanças na capacidade de articulação do ex-presidente, que também já vinha discutindo medidas para “refundar” o governo: na política, reduzir a hegemonia do PT e do PMDB e, na economia, levar a cabo o mantra de suas falas de “colocar dinheiro na mão de pobre” para tentar reativar a atividade no País, dando uma guinada à esquerda nessa área.

Tudo isso perde força porque a expectativa é que o Supremo Tribunal Federal (STF) só julgue se o ex-presidente poderá assumir o ministério mais importante do governo Dilma no dia 20, portanto após a prevista votação da Câmara que poderá admitir a abertura do pedido de impeachment contra a presidente e mais de um mês depois da primeira decisão da Corte que barrou a nomeação de Lula.

Por essa razão, o parecer de Janot – que é simplesmente uma opinião – terá peso em desfavor da gestão Dilma no desenlace da crise, assim como as revelações das delações premiadas de executivos da Andrade Gutierrez de doações para PT e PMDB a partir de propina em obras tocadas pela empreiteira. Ainda que cite o PMDB do vice Michel Temer, o foco recai principalmente e no momento sobre a titular da campanha.

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