Orçamento e BC minam planos de Dilma

Orçamento e BC minam planos de Dilma

Jaques Wagner aposta em "harmonia" da equipe econômica para garantir a volta do crescimento, como quer Dilma Rousseff. Mas restrições orçamentárias e da política monetária dificultam missão

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

23 Dezembro 2015 | 18h08

Dilma Rousseff e Jaques Wagner (Evaristo Sá/AFP)

Dilma Rousseff e Jaques Wagner (Evaristo Sá/AFP)

O enxuto orçamento do próximo ano e os recados dados pelo Banco Central (BC) nesta quarta-feira durante a Relatório Trimestral de Inflação (RTI) restringem os planos da presidente Dilma Rousseff de garantir a “urgente” retomada da atividade econômica no País em meio à discussão da segunda etapa do ajuste fiscal e de barrar o impeachment dela em 2016. Esse foi um dos motes da troca de Joaquim Levy por Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda.

Sob qualquer ponto de vista que se olhe, o governo dificilmente conseguirá induzir o crescimento da economia brasileira nos moldes com que fez após a crise de 2008. A expectativa é de no máximo estabilizar a queda do investimento público.

Não fosse pouco, o Executivo, enfraquecido politicamente, também foi podado na liberdade orçamentária que tinha pelo Congresso, em articulação antecipada pelo Estado em outubro. Não poderá remanejar no ano que vem 30% de todo o PAC sem necessitar de aval do Congresso, o que fazia desde 2011.

O relatório do BC tampouco ajuda o governo a cumprir seu intento. Para trazer a inflação atualmente em 10% para o centro da meta só em 2017 (4,5%), o banco sinaliza com um aumento da Selic em janeiro de 2016.

Como efeitos deletérios, se ocorrer, essa ação vai deprimir ainda mais o consumo, dificultando a saída da recessão econômica – para futura grita dos aliados do Congresso durante o delicado momento do impeachment. Também aumentará a relação da dívida pública com o PIB – a barreira dos 70% desse indicador será ultrapassada no próximo ano, mesmo se o governo cumprir a difícil meta de superávit primário de 0,5% “puro” (Barbosa queria uma meta flexível, para tentar alavancar os investimentos).

Ainda assim, a autoridade monetária queria um esforço fiscal maior do governo. “Tem que se trabalhar para ter resultados primários mais significativos e gerar primários consistentes para a redução”, alertou hoje o diretor de Polícia Econômica do BC, Altamir Lopes. Ele deu o recado de que é tarefa que exigirá muito trabalho.

A única questão concreta com que o governo acena para melhorar futuramente a trajetória da dívida pública é uma reforma da Previdência com a adoção da idade mínima. A proposta, contudo, ainda não foi sequer apresentada e já encontra forte resistência do meio sindical e até de parlamentares do PT.

O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, aposta na “harmonia” da nova equipe econômica para garantir, como quer Dilma, a retomada “urgente” da melhora na atividade econômica sem “mudanças bruscas”. A carência de armas do governo mostra que a tarefa de cumprir o tempo da economia – crescimento rápido – e da política – derrubar o impeachment – será complicada. Nelson Barbosa terá que apresentar as cartas de como vai atender o pedido da presidente de urgência para o crescimento.

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