Por Lula, Wagner sabota Barbosa ao falar de reservas

Por Lula, Wagner sabota Barbosa ao falar de reservas

Declaração de ministro da Casa Civil sobre uso de recursos administrados pelo BC indica possível inflexão na economia, mas enfraquece posição de ministro da Fazenda

Adriana Fernandes e Ricardo Brito

15 de março de 2016 | 15h37

(Jaques Wagner/Fábio Motta/Estadão)

(Jaques Wagner/Fábio Motta/Estadão)

Lula já é governo, mesmo em meio à homologação hoje da bombástica delação premiada do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral, que o implicou e a presidente Dilma Rousseff em suspeitas investigadas pela Operação Lava Jato, alimentando ainda mais a sombra do impeachment após os gigantescos protestos de domingo (13).

Antes mesmo de o ex-presidente entrar de fato como o “Pelé” da equipe de Dilma, é simbólico que o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, tenha admitido ontem a possibilidade de uso das reservas internacionais. Com US$ 372,58 bilhões, as reservas brasileiras, sob gestão do Banco Central, tornaram-se nos últimos tempos a obsessão do PT e de Lula para “salvar” as contas públicas e a economia brasileira.

Embora a possibilidade de uso das reservas seja um dos assuntos econômicos mais sensíveis a alimentar o combustível da especulação do mercado financeiro, Jaques Wagner não se esquivou de afirmar que há “uma reflexão” no governo sobre a adoção desse caminho. Na agenda do PT de 22 medidas de emergência a serem adotadas pelo governo, a utilização de parte das reservas para um Fundo de Desenvolvimento e Emprego é o segundo item da lista.

A declaração de Wagner, o mais fiel aliado de Lula no governo Dilma, vai justamente na contramão do que vem afirmando o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. O ministro reforçou a sua posição, na sexta-feira passada, durante encontro, em São Paulo, com membros do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

É sempre bom lembrar o que disse Barbosa com todas as letras: “As reservas são um ativo importante. É pela acumulação de reservas que hoje temos uma maior estabilidade no balanço de pagamentos, o que nos dá autonomia para discutir a solução dos nossos problemas com os brasileiros, com os empresários, trabalhadores e parlamentares brasileiros. É um seguro importante contra flutuações no câmbio e tem de ser preservado, especialmente nesse momento de turbulência”.

Na quarta-feira da semana passada, portanto antes da declaração do ministro, circulavam rumores no mercado de que o governo utilizaria as reservas internacionais para impulsionar a economia, em especial o programa Minha Casa, Minha Vida. As especulações giravam justamente em torno de Jaques Wagner, que, segundo as informações que rodaram as mesas de operação, teria concordado com o uso das reservas. Não foi à toa que no dia seguinte dos boatos, Barbosa utilizou um evento de aniversário do Tesouro Nacional para declarar em tom acima do seu estilo pessoal de que não é hora de “extremismos” na economia.

Está claro que o ministro da Fazenda está sendo sabotado. Se Barbosa capitular em torno de sua convicção de que é preciso preservar as reservas, será o sinal mais evidente de que seguirá na mesma armadilha imposta pelo PT e Lula ao ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy. A diferença é que Barbosa não é Levy e, sendo assim, não ficará fazendo seguidas ameaças de deixar o governo, se as coisas não forem feitas do seu jeito.

O risco é o ministro ceder demais em relação aos princípios de sua estratégia de política econômica já anunciada. A proposta de reforma da Previdência já caiu por terra. As reservas poderão ser a próxima mudança.

O embarque de Lula na Esplanada já mexe com o ajuste de Barbosa. Pode mexer também com a cadeira dele. Aliados do ex-presidente voltam a lembrar para o posto o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. A menção às reservas foi o primeiro sinal concreto de que uma inflexão se arma no governo, tudo para salvar o projeto Dilma e Lula.

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