Por sobrevivência, Lula “reforma” governo Dilma

Por sobrevivência, Lula “reforma” governo Dilma

Saída de Cardozo encerra terceira etapa de mudanças na gestão da petista por pressão do ex-presidente, que começou com Mercadante e passou por Levy

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

29 Fevereiro 2016 | 17h19

(José Cardozo/Dida Sampaio-Estadão)

(Cardozo e Dilma/Dida Sampaio-Estadão)

A queda do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fecha o terceiro capítulo da “reforma” que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou no governo da sua pupila, a presidente Dilma Rousseff. O primeiro capítulo começou com a saída do “dilmista” Aloizio Mercadante da Casa Civil em prol de Jaques Wagner, em outubro, seguido pela retirada de Joaquim Levy em favor de Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda em dezembro.

O primeiro movimento foi para consertar a política; o segundo, a economia; e o terceiro, esperam aliados do ex-presidente, a pasta da Justiça – leia-se a Polícia Federal – diante do avanço das investigações da Operação Lava Jato e Zelotes em relação ao ex-presidente e familiares dele.

Olhando em retrospecto, contudo, houve uma inicial melhora na seara política, mas sem debelar de todo a nuvem do afastamento de Dilma e garantias de aprovar no Congresso o que resta do ajuste fiscal (CPMF, DRU) e das futuras reformas fiscal e da Previdência.

Na economia, a troca serviu num primeiro momento para retirar o “homem do mercado” em prol de um “desenvolvimentista”. Mas o próprio Lula tem se mostrado insatisfeito com os resultados da mudança – queixou-se recentemente a senadores que Barbosa está “menos ousado” depois que assumiu o cargo. Para Lula, poderia ser audacioso ao, por exemplo, aumentar a oferta de crédito dos bancos públicos para brasileiros – como se, com o alto endividamento e em meio a recessão econômica com o aumento do desemprego, as pessoas estivessem confiantes para sair gastando.

A troca de Cardozo – que seguirá para a Advocacia-Geral da União – poderá ter um efeito bumerangue: em vez de distensionar, tende a servir de combustível para que os investigadores da PF, os procuradores da República e o juiz Sérgio Moro (os dois últimos com independência funcional assegurada pela Constituição) continuem a levar a cabo o trabalho de apuração contra o ex-presidente. Seja para acusar Lula formalmente ou não, condená-lo ou não, podendo inviabilizá-lo eleitoralmente em 2018. Dilma também não está livre desse efeito, uma vez que seu marqueteiro de reeleição está preso e as investigações de campanha continuam avançando.

Em meados do ano passado, o presidente do Senado e alvo de seis inquéritos na Lava Jato, Renan Calheiros (PMDB-AL), também achava que era preciso derrubar Cardozo e chegou até a sugerir o nome do vice-presidente, o advogado constitucionalista Michel Temer, para o posto. Mas, recentemente, Renan confidenciou a aliados que a medida não surtiria mais efeito – o efeito não dito, claro, que é controlar a PF. O raciocínio é que ao menos a Lava Jato avançou tanto que ultrapassou um caminho sem volta.

Difícil saber se a “reforma” de Lula, de fato, vai levar a um retrocesso ou ao menos interrupção das investigações que atingem a todos.

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