Renan usa pautas econômicas como biombo contra investigações

Renan usa pautas econômicas como biombo contra investigações

Tática de tentar votar propostas como a da independência do Banco Central e a que muda a exploração no pré-sal retira o presidente do Senado do foco das acusações

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

10 Fevereiro 2016 | 14h41

(Renan Calheiros/Andre Dusek-Estadão)

(Renan Calheiros/Andre Dusek-Estadão)

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), voltou a usar as pautas econômicas como biombo para se afastar do avanço de investigações que o envolvem diretamente. A tática foi colocada em prática no retorno do recesso parlamentar, na semana passada, quando ele anunciou ter eleito como prioridade de 2016 as propostas de desobrigar a Petrobras de ser a operadora única na exploração da camada do pré-sal e que dá independência para a escolha do presidente e dos diretores do Banco Central (BC).

Coincidentemente, Renan foi acossado durante a pausa dos trabalhos legislativos por revelações da Operação Lava Jato, do qual é alvo de seis inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), e mais recentemente com a possibilidade de virar réu na mesma Corte por peculato (desvio de dinheiro público), falsidade ideológica e uso de documento falso no escândalo de 2007, em que é acusado de ter recebido propina da Mendes Junior para pagar despesas pessoais em troca de emendas parlamentares para a empreiteira.

Um senador da base aliada que acompanha as movimentações do peemedebista disse que, ao se adiantar propondo a votação dessas duas pautas, Renan tenta fazer um aceno ao mercado financeiro e ao mesmo tempo garantir a simpatia dos partidos de oposição – que reconhece a destreza dele em incluir as pautas dos adversários do Palácio do Planalto.

Por outro lado, avalia o senador, a despeito das pautas econômicas, não há sinal entre os partidos governistas – em especial do PT – de que haverá um pedido de saída do presidente do Senado ao menos por ora. Afinal, ele se tornou o principal aliado do governo no Congresso e há muitos iguais a ele, envolvidos na Lava Jato na Casa. Diante de pautas delicadas, o governo precisa sempre tê-lo por perto para conversar.

Em uma parada sexta-feira de novembro de 2013, Renan usou a tribuna do Senado e, já como presidente, anunciou ser a favor do projeto que concede autonomia legal ao BC. Uma semana depois foi recebido no Planalto pela presidente Dilma Rousseff e disse não ter tratado do assunto com ela. A fala de Renan serviu para ele se recolocar no xadrez político – queria emplacar o filho candidato, Renanzinho, ao governo alagoano com o apoio do PT.

Em março passado, logo após o STF ter aberto o primeiro inquérito contra ele na Lava Jato, o presidente do Senado voltou a sugerir a independência do BC ao então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Um aliado dele, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), até apresentou uma nova proposta de emenda à Constituição com esse objetivo no mês seguinte – e que não andou na Casa.

Em agosto, ao mesmo tempo em que aumentavam as citações a ele na operação policial, ele propôs a chamada Agenda Brasil, um pacote de medidas legislativas para tirar o País da crise. Dilma se ancorou nele e na agenda, quase nada das ações foi adiante. E ele seguiu em frente.

Questionado diretamente sobre as acusações, Renan responde sempre ter prestado todos os esclarecimentos e estar à disposição da Justiça. Perguntado se fica no cargo mesmo se virar réu – afinal ele é o quarto na linha de sucessão presidencial -, ele se calou por duas vezes na semana passada.

A tática política com a pauta econômica – cuja discussão é legítima, diga-se – tem dado certo. Mas um dia o acerto de contas com a Justiça chegará.

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